Pós-Graduação no Nordeste: Resistência e Potência
A pós-graduação no Nordeste cresce apesar das desigualdades estruturais de financiamento e reconhecimento. Precisamos falar sobre o que isso significa.
O que significa fazer ciência no Nordeste
Vamos lá. Existe uma narrativa sobre a pós-graduação brasileira que coloca São Paulo, Rio de Janeiro e alguns estados do Sul como os lugares onde “acontece” a ciência de verdade. O resto do país aparece nas margens, quando aparece.
Essa narrativa é parcialmente descritiva de uma realidade de concentração histórica de recursos. E é também, em grande parte, uma construção de poder que se auto-reproduz.
O Nordeste tem uma pós-graduação com história, com resistência e com potência real. E precisamos falar sobre isso com honestidade, tanto sobre os problemas estruturais que persistem quanto sobre o que está sendo produzido apesar deles.
A concentração de recursos é real e tem nome
Não é possível falar de pós-graduação no Nordeste sem nomear o problema do financiamento.
A FAPESP, fundação de amparo à pesquisa do estado de São Paulo, tem orçamento anual que supera em muito a soma de todas as fundações estaduais das regiões Norte e Nordeste juntas. Isso não é porque São Paulo tem mais pesquisadores excelentes. É porque tem uma lei estadual que garante um percentual fixo da receita tributária para a fundação, um modelo que outros estados tentaram replicar mas com muito menos sucesso em termos de valores absolutos.
Nas chamadas nacionais do CNPq, programas de pós-graduação com nota mais alta na avaliação da CAPES têm vantagem na competição por projetos. E os programas com nota mais alta estão, em sua maioria, no Sudeste. É um ciclo que se retroalimenta.
A distribuição das bolsas de produtividade do CNPq, que representam reconhecimento e recurso para pesquisadores, segue padrão similar. Um estudo publicado alguns anos atrás mostrou que São Paulo concentrava mais de 40% das bolsas PQ, enquanto todos os estados do Nordeste somados tinham uma fração pequena em comparação ao peso demográfico da região.
Isso não é natural. É resultado de décadas de políticas que não priorizaram equalização regional.
O que está sendo feito mesmo assim
O Nordeste não esperou o Sudeste decidir quando seria a hora de produzir ciência.
A UFBA tem uma tradição de pesquisa em humanidades e ciências da saúde que antecede a maioria dos programas de pós mais jovens do Sul. A UFC tem grupos de pesquisa em engenharias, ciências agrárias e saúde com produção reconhecida internacionalmente. A UFPE tem programas de excelência em computação, física e saúde coletiva. A UFRN foi pioneira em algumas áreas de ciências do comportamento e neurociências.
A Embrapa Semiárido faz pesquisa adaptada à realidade do semiárido nordestino que não seria possível fazer em nenhuma outra região do planeta, simplesmente porque o semiárido semiárido está lá.
A Fiocruz Pernambuco tem produção relevante em doenças tropicais, vigilância em saúde e biotecnologia que é reconhecida mundialmente.
E há uma geração nova de pesquisadoras nordestinas que passou por programas de pós no Sudeste ou no exterior, voltou para sua região de origem, e está construindo grupos de pesquisa com perspectivas que não existem quando todo mundo é do mesmo lugar.
O preconceito regional existe na academia
Preciso nomear isso porque raramente é dito de forma direta.
Existe um preconceito velado na academia brasileira em relação a pesquisadores oriundos de instituições do Norte e Nordeste. Ele aparece em entrevistas de processo seletivo, em processos de avaliação de projetos, em convites para participar de redes e grupos de pesquisa.
Não é declarado. Mas aparece na suposição implícita de que uma pesquisadora formada pela UFC ou UFBA tem, por padrão, formação menos rigorosa do que uma formada pela USP ou UNICAMP. Essa suposição é injusta e, em muitos casos, simplesmente errada.
Uma pesquisadora formada em Fortaleza que passou por um grupo de pesquisa sólido, publicou em bons periódicos e desenvolveu sua tese com rigor não é pesquisadora de segunda classe. Mas vai precisar provar isso mais vezes, para mais pessoas, em mais contextos, do que uma colega com diploma de São Paulo.
Isso é um problema estrutural do campo acadêmico, não uma falha individual de quem passou por isso.
A questão da migração de talentos
Um padrão problemático que se repete: estudantes e pesquisadores do Nordeste saem para fazer pós-graduação em outros estados e não voltam. Ficam no Sudeste ou Sul porque é onde estão as oportunidades de emprego acadêmico, os recursos para pesquisa, as redes.
Isso é compreensível do ponto de vista individual. É um problema coletivo.
Quando a região forma seus pesquisadores e não consegue retê-los, o ciclo de concentração continua. E a pesquisa sobre as especificidades do Nordeste, do clima, da cultura, dos problemas de saúde particulares, das dinâmicas econômicas locais, fica menos robusta porque os pesquisadores mais bem formados estão em outro lugar.
Políticas de atração e fixação de pesquisadores nas regiões periféricas existem, mas de forma insuficiente. O Programa Ciência sem Fronteiras teve versões de retorno que tentaram abordar isso, com resultado limitado.
Por que isso importa para qualquer pesquisadora no Brasil
Você pode estar lendo isso em Curitiba, São Paulo ou Florianópolis e pensando que não é o seu problema.
É. Por razões práticas e por razões de princípio.
Razão prática: a ciência brasileira é mais fraca quando concentrada. Problemas de saúde, questões ambientais, desafios sociais e econômicos que existem no Nordeste e no Norte não vão ser estudados com a profundidade necessária se os pesquisadores capazes de estudá-los estão em outro lugar, fazendo outras perguntas.
Razão de princípio: se você acredita que o conhecimento científico deve servir às populações que precisam dele, então a distribuição desigual de quem produz esse conhecimento é um problema de valores, não apenas de eficiência.
O debate sobre desigualdade regional na ciência brasileira precisa ser mais alto, mais constante e mais presente nas associações científicas, nas políticas de financiamento e nas conversas dentro dos departamentos.
O que está na nossa mão fazer
Não tenho soluções simples para estruturas complexas. Mas algumas coisas concretas:
Quando você avalia um projeto, um artigo, um candidato, examine seus critérios. Você está avaliando o trabalho ou está avaliando a instituição de origem?
Se você tem poder de convite em eventos, comissões ou redes, use esse poder para incluir pesquisadoras de regiões sub-representadas. Não como cota simbólica, como reconhecimento de que o campo é mais rico com perspectivas diversas.
Se você está pensando em onde fazer sua pós, não descarte programas do Norte e Nordeste por preconceito. Pesquise os grupos de pesquisa, as publicações, os orientadores. A qualidade está em alguns lugares que o mapa de prestígio acadêmico não mostra.
E fale sobre isso. Nomear o problema é o primeiro passo para não reproduzi-lo.