Método

TCC e Dissertação com Pouco Conteúdo: Como Resolver

Seu TCC ou dissertação está com poucas páginas ou parece raso? Veja como identificar o que falta e aprofundar o conteúdo de forma estratégica.

escrita-academica tcc dissertacao metodologia

Quando o texto não “fecha” o que deveria

Vamos lá. Um dos momentos mais angustiantes da escrita acadêmica é quando você olha para o trabalho, faltam páginas, o orientador diz que está “raso”, e você não sabe bem o que fazer.

Não é falta de esforço. Muitas vezes é falta de clareza sobre o que significa “profundidade” num trabalho científico, e uma vez que você entende isso, a solução fica muito mais concreta.

O conteúdo de um TCC, dissertação ou tese não aumenta escrevendo mais palavras em torno do que já está lá. Aumenta aprofundando o raciocínio, ampliando o diálogo com a literatura, detalhando a metodologia e desenvolvendo as análises que o trabalho ainda não fez.

Passo 1: Diagnostique onde está o problema

Antes de qualquer solução, você precisa entender exatamente onde o trabalho está fraco. Um texto “raso” ou “com pouco conteúdo” quase sempre tem um problema localizado, não distribuído por todo o trabalho.

As seções mais comuns onde o problema aparece:

Revisão de literatura insuficiente: poucas fontes, fontes desatualizadas, ou fontes que são apresentadas de forma descritiva (o que cada autor disse) sem análise ou síntese (o que o campo como um todo sabe, debate ou ainda não resolveu).

Metodologia superficial: descreve o tipo de pesquisa mas não explica os procedimentos com detalhe suficiente. A metodologia precisa ser reproducível, outro pesquisador deveria conseguir replicar o estudo a partir da sua descrição.

Resultados incompletos: apresenta os principais achados mas não desce ao detalhe das evidências que os sustentam. Em pesquisa qualitativa, excertos dos dados. Em pesquisa quantitativa, tabelas, gráficos e estatísticas descritivas antes das inferenciais.

Discussão ausente ou confundida com resultados: muitos trabalhos de iniciantes não têm discussão de verdade, têm resultados repetidos com outras palavras. A discussão é outra coisa: é a interpretação do que os resultados significam, em diálogo com a literatura.

Conclusão sem substância: repete os resultados sem extrair contribuições, limitações e perspectivas para pesquisas futuras.

O problema mais comum: a revisão de literatura descritiva

Dou atenção especial a esse ponto porque é onde a maioria dos trabalhos “rasos” concentra o problema.

Uma revisão de literatura descritiva parece assim: “Autor X (ano) afirma que… Autor Y (ano) concorda com… Autor Z (ano) apresentou um estudo que…”

Essa estrutura tem dois problemas. Primeiro, ela não diz nada sobre o fenômeno que você está estudando, apenas sobre o que as pessoas já disseram sobre ele. Segundo, não há análise: o leitor recebe informações, mas não recebe argumento.

Uma revisão de literatura analítica tem outra estrutura. Ela organiza a literatura por temas, debates ou perspectivas e extrai sínteses:

  • “A literatura sobre X converge em torno de dois pontos: [síntese A] e [síntese B].”
  • “Há um debate não resolvido entre [perspectiva 1] e [perspectiva 2], com implicações para [aspecto do seu estudo].”
  • “Estudos mais recentes têm questionado [consenso anterior], apontando para [nova direção].”

Essa forma de escrever a revisão gera conteúdo real porque exige que você pense sobre o campo, não apenas relate o que cada autor disse.

Como aprofundar cada seção

Aprofundando a revisão de literatura

Adicione mais fontes, especialmente fontes recentes (últimos 5 anos) e fontes seminais (textos fundadores do campo). Se você tem menos de 20 referências num TCC, provavelmente está subrepresentando a literatura.

Organize por subtemas, não por autores. Em vez de “O que disse A, depois B, depois C”, estruture em “O que se sabe sobre [subtema 1]” e “O que se sabe sobre [subtema 2]”.

Mostre o diálogo entre autores. Autores concordam? Divergem? Complementam-se? Isso é o que torna a revisão interessante analiticamente.

Relacione com o seu estudo. A revisão de literatura existe para embasar a sua pesquisa, não para ser um repositório de informações gerais. Cada seção da revisão deve ter conexão explícita com o seu problema e objetivos.

Aprofundando a metodologia

Desça ao detalhe. Se você fez entrevistas, descreva: quantas, com quem, com que critério de seleção, em que período, com que duração média, como foram conduzidas, como foram gravadas e transcritas, como os dados foram analisados.

Se você usou um instrumento validado (escala, questionário, roteiro), descreva o instrumento e cite a referência de validação.

Se a pesquisa passou por comitê de ética, inclua o número do CAAE.

Detalhamento não é burocracia, é rigor. Um leitor que não sabe como os dados foram coletados não consegue avaliar a confiabilidade dos resultados.

Aprofundando os resultados

Para pesquisa qualitativa: cada tema ou categoria precisa de pelo menos 2 a 3 excertos representativos dos dados, com identificação do participante. Não coloque apenas 1 citação por tema, isso não mostra que o padrão existe, mostra que um participante disse uma coisa.

Para pesquisa quantitativa: a análise descritiva precede a inferencial. O leitor precisa saber quem são os participantes, como as variáveis se distribuem, quais as medidas de tendência central e dispersão, antes de chegar às correlações ou diferenças entre grupos.

Tabelas e figuras precisam ser lidas no texto. Não basta colocar uma tabela e pular para o próximo parágrafo. Você precisa interpretar o que a tabela mostra antes de avançar.

Aprofundando a discussão

A discussão exige que você responda: o que isso significa?

Para cada resultado principal, pergunte:

  • Isso confirma, contraria ou amplia o que a literatura mostra?
  • Por que esse resultado pode ter ocorrido?
  • O que isso revela sobre o fenômeno que você estudou?
  • Que implicações práticas ou teóricas isso tem?

Se a discussão está rasa, normalmente é porque o trabalho foi direto aos resultados sem fazer esse movimento interpretativo. Volte à revisão de literatura e localize os pontos de diálogo com cada resultado.

O que NÃO fazer para aumentar o conteúdo

Agora o aviso importante: existem formas de aumentar o volume do trabalho que não aumentam a qualidade, e que avaliadores experientes identificam imediatamente.

Não encha com citações longas desnecessárias. Citações de mais de quatro linhas devem ser usadas quando o texto original é insubstituível. Se você está citando longamente apenas para aumentar a página, o orientador vai notar.

Não repita informações que já estão em outras seções. Repetir o objetivo na metodologia, repetir a metodologia nos resultados, repetir os resultados na conclusão, isso não é profundidade, é redundância.

Não use parágrafos de transição vazios. “Neste capítulo, vamos abordar…” seguido de um parágrafo que resume o que já foi dito não agrega valor.

Não adicione conteúdo não relacionado com o problema de pesquisa. Uma revisão de literatura que se expande para áreas tangencialmente relacionadas sem conexão clara com o seu estudo dilui o foco e confunde o leitor.

A densidade como objetivo

O texto científico ideal é denso: cada parágrafo avança o argumento, cada seção cumpre uma função, cada citação sustenta uma afirmação. Densidade não é o mesmo que dificuldade de leitura, um texto pode ser claro e ao mesmo tempo substancioso.

O Método V.O.E. trabalha exatamente essa questão. A fase de Organização, em particular, ajuda a mapear o que o trabalho precisa ter antes de começar a escrever, o que evita o problema de descobrir no final que algo está faltando.

Uma das ferramentas que uso com quem está escrevendo é o mapa de argumentos: para cada seção do trabalho, escreva em uma frase o que ela precisa comunicar. Se você não consegue escrever essa frase, a seção provavelmente não tem clareza suficiente, e aí sim, precisa de mais trabalho.

Quando o orientador diz que está raso

Uma última coisa sobre receber esse feedback.

“Está raso” ou “falta profundidade” é um feedback frustrante porque não é específico. Se você recebeu esse comentário, peça mais clareza: em qual seção? O que especificamente está faltando? Mais fontes? Mais análise? Mais detalhe metodológico?

Um orientador que diz “está raso” e não explica onde quer dizer mais geralmente está vendo o trabalho como um todo e percebendo que o argumento não convence, mas pode ter dificuldade de localizar o problema com precisão. Sua tarefa nesse momento é fazer as perguntas certas para transformar um feedback vago em ações concretas.

Se você quer aprofundar a discussão sobre escrita acadêmica e como desenvolver textos científicos sólidos, a página de recursos tem materiais que complementam o que vimos aqui.

Perguntas frequentes

Meu TCC está com poucas páginas. O que fazer?
Primeiro, identifique onde o conteúdo está escasso: se é a revisão de literatura (busque mais fontes e aprofunde o diálogo entre elas), se é a metodologia (detalhe os procedimentos), se são os resultados (detalhe os achados com exemplos, dados e tabelas), ou se é a discussão (explore mais profundamente as implicações dos resultados). Número de páginas é consequência de profundidade, não de enchimento, adicione conteúdo que agregue valor analítico, não texto para cumprir cota.
Qual é o número mínimo de páginas de um TCC?
Não existe um número universal, cada instituição e programa define seus requisitos. Em geral, TCCs de graduação têm entre 40 e 80 páginas, dissertações de mestrado entre 80 e 150 páginas, e teses de doutorado entre 150 e 300 páginas. Mas esses são intervalos comuns, não regras fixas. O mais importante é que o trabalho responda adequadamente à pergunta de pesquisa com o rigor esperado.
É melhor ter um TCC curto e denso ou longo e superficial?
Curto e denso, sempre. Avaliadores acadêmicos valorizam profundidade e precisão muito mais do que volume. Um TCC de 50 páginas com análise sólida, revisão de literatura atualizada e discussão argumentativa consistente vale muito mais do que 90 páginas de texto repetitivo, citações desnecessárias e paráfrases sem análise. O texto científico ideal não tem palavras a mais nem palavras a menos.

Leia também

Receba estratégias de escrita acadêmica direto no seu feed

Siga a Dra. Nathalia no YouTube e Instagram para conteúdo gratuito sobre o Método V.O.E.