Preprint: Erros Mais Comuns que Pesquisadores Cometem
Preprint pode acelerar a ciência, mas também pode atrapalhar sua carreira se usado sem critério. Entenda os erros mais comuns e como evitá-los.
Preprint não é publicação e isso importa muito
Vamos lá. Preprint é um manuscrito científico disponibilizado publicamente antes de passar pelo peer review formal de uma revista científica. Surgiu como prática comum em física e matemática, se popularizou em biologia e biomedicina durante a pandemia de COVID-19, e hoje é discutido em praticamente todas as áreas.
É uma ferramenta poderosa quando usada com critério. E é um problema considerável quando usada sem ele.
Minha posição sobre isso é clara: preprint não é substituto de publicação revisada por pares. Ele tem usos legítimos e importantes, mas confundir os dois cria problemas que vão desde a desinformação científica até danos concretos à carreira de pesquisadoras. Este post é sobre os erros mais comuns, porque conhecer os erros é o primeiro passo para não repeti-los.
O que preprint é e o que não é
Antes de falar dos erros, preciso alinhar o conceito.
Preprint é um manuscrito que você deposita em um servidor público (arXiv, bioRxiv, medRxiv, SciELO Preprints, OSF Preprints, entre outros) antes de submetê-lo, durante a submissão ou enquanto aguarda a revisão de uma revista. O arquivo fica disponível publicamente, com um DOI, e qualquer pessoa pode lê-lo.
O que preprint não é: não é publicação peer reviewed. O texto não passou pelo julgamento crítico de especialistas da área de forma formal. Isso não significa que o texto é necessariamente ruim, mas significa que não tem o mesmo peso epistemológico de um artigo que passou por revisão rigorosa.
Também não é artigo de blog. Preprint tem estrutura científica, metodologia, dados e análise. A diferença em relação ao artigo publicado é o estágio do processo, não a seriedade do conteúdo.
Erro 1: Divulgar preprint para o público geral como se fosse resultado definitivo
Esse é o erro com maior potencial de dano, especialmente em áreas de saúde.
Durante a pandemia de COVID-19, preprints foram amplamente citados em reportagens e redes sociais antes de qualquer revisão por pares. Alguns depois foram refutados, retirados ou significativamente revisados. O problema é que a retratação de um preprint não tem o mesmo alcance que a divulgação inicial.
O que vai para o público é a manchete. O que fica é o que as pessoas leram primeiro.
Se você vai divulgar seus resultados antes da publicação formal, faça isso com clareza absoluta sobre o que aquele texto é. “Publicamos um preprint sobre X” não é o mesmo que dizer “nossa pesquisa descobriu que X”. A segunda formulação sugere um nível de certeza que o preprint ainda não tem.
Erro 2: Depositar preprint de um estudo com metodologia frágil
Pesquisadoras às vezes usam o preprint como uma saída para um trabalho que não está pronto para submissão. A lógica implícita é: “assim pelo menos o texto fica registrado”. Entendo a lógica, mas o custo pode ser alto.
Um preprint com metodologia problemática fica disponível publicamente com seu nome. Outros pesquisadores podem citá-lo. Pode aparecer em buscas. E, diferente de um artigo rejeitado que fica na gaveta, o preprint tem visibilidade antes da validação.
Se o trabalho não está pronto para uma revista, provavelmente não está pronto para o preprint. Preprint é aceleração, não atalho.
Erro 3: Não atualizar o preprint quando o artigo for publicado
Quando o artigo passa pelo peer review e é publicado, muitas vezes ele muda. A revisão por pares, quando funciona bem, melhora o texto: aponta falhas metodológicas, sugere análises adicionais, pede clareza em pontos obscuros.
Um preprint desatualizado que continua circulando com a versão antiga do estudo é fonte de confusão. Alguém pode citar a versão do preprint sem saber que o artigo publicado chegou a conclusões diferentes.
A boa prática é atualizar o preprint com um link para o artigo publicado e indicar que existe uma versão final. Muitos servidores permitem isso. Se não permitirem, pelo menos indique no texto que existe uma versão mais atualizada.
Erro 4: Ignorar a política da revista na hora de submeter
Algumas revistas têm políticas específicas sobre preprint. A maioria das grandes revistas aceita submissões de textos que já foram depositados como preprint, mas exige que isso seja declarado. Algumas revistas não aceitam preprints em hipótese alguma. Algumas exigem que o preprint seja retirado após a publicação formal.
Não verificar isso antes de depositar pode resultar em rejeição automática da submissão ou em complicações com o processo editorial. Vale um minuto de pesquisa no site da revista sobre a política de preprint antes de depositar.
Erro 5: Tratar preprint como publicação no currículo sem a devida distinção
Para fins de avaliação da CAPES e de processos seletivos de pós-graduação, preprint e artigo publicado em periódico com Qualis não são equivalentes. Isso precisa estar claro no currículo Lattes e em qualquer documento de apresentação de produção científica.
Misturar os dois na mesma lista, sem distinção clara, pode ser interpretado como tentativa de inflar a produção. Preprint tem lugar legítimo no currículo, mas precisa estar identificado como preprint, com o servidor e a data de depósito.
Onde o preprint funciona bem
Não quero que este post seja lido como argumentação contra preprint. Ele tem usos legítimos e importantes.
Em pesquisa com urgência de divulgação, como surtos epidemiológicos ou resultados que afetam política pública, o preprint permite que o conhecimento chegue antes do tempo necessário para publicação formal. Em campos de rápida evolução, como inteligência artificial ou biologia computacional, o preprint é muitas vezes o meio de comunicação científica mais atualizado que existe.
Preprint também é útil para receber feedback antes da submissão. Colocar o texto em circulação antes do peer review formal pode trazer críticas e sugestões que melhoram a versão final. É um uso inteligente da ferramenta.
O preprint funciona quando: o texto está rigoroso o suficiente para ser lido criticamente, a divulgação é feita com clareza sobre o que o texto representa, e existe um plano claro para a publicação formal na sequência.
O que a prática diz sobre preprint na academia brasileira
A adoção de preprints no Brasil cresceu significativamente a partir de 2020, em parte por influência da pandemia e em parte pela criação do SciELO Preprints. Áreas de saúde e ciências biológicas lideram o uso, mas ciências humanas e sociais também começam a adotar a prática.
Ainda existe resistência em partes da comunidade científica brasileira, especialmente em áreas onde a publicação em livro ou capítulo tem peso avaliativo maior. E existe confusão sobre o status do preprint para fins de progressão na carreira, o que alimenta tanto o uso inadequado quanto o receio desnecessário.
O cenário está mudando, mas ainda não existe um consenso consolidado sobre boas práticas de preprint em todos os campos. Isso coloca a responsabilidade de escolha nas mãos de cada pesquisadora.
Usar preprint com critério é parte da integridade científica
Preprint é uma ferramenta de comunicação científica. Como qualquer ferramenta, o resultado depende de como é usado. Usar bem significa ter clareza sobre o que o texto representa, comunicar isso com honestidade, e tratar o preprint como o que ele é: um passo no processo, não o destino.
A ciência que avança com responsabilidade não tem pressa de parecer mais robusta do que é. Tem compromisso com a precisão, mesmo que isso custe tempo.
Para refletir mais sobre integridade na produção científica, você pode visitar a página sobre o Método V.O.E. e explorar outros posts sobre ética e responsabilidade na pesquisa.
Perguntas frequentes que pesquisadoras fazem sobre preprint
Ao longo das mentorias e conversas que tenho com pesquisadoras, algumas dúvidas sobre preprint aparecem de forma recorrente. Vou responder as mais comuns aqui, de forma direta.
“Tenho medo de depositar meu preprint e alguém roubar a ideia.” Esse medo existe e faz sentido, mas o preprint protege mais do que expõe. O depósito cria um registro público com data e autoria. Se alguém tentar publicar a mesma ideia depois, o preprint é evidência de prioridade. A lógica é inversa ao que o medo sugere.
“Posso retirar o preprint se for rejeitado pela revista?” Depende do servidor. Alguns permitem a retirada, outros não. No arXiv, por exemplo, o preprint continua disponível mesmo que você queira retirar. Por isso, o cuidado com a qualidade antes de depositar é importante: o que vai para o servidor pode ficar lá permanentemente.
“O preprint ajuda a conseguir uma bolsa?” Em geral não, não da mesma forma que uma publicação revisada por pares. Mas um preprint de qualidade pode demonstrar que você tem produção em andamento, o que pode ser relevante em editais que pedem evidência de produtividade recente. Sempre verifique os critérios do edital específico.
“Qual servidor de preprint é mais adequado para minha área?” Depende da área. ArXiv é dominante em física, matemática e computação. BioRxiv e MedRxiv são muito usados em biologia e medicina. SciELO Preprints tem crescimento significativo no Brasil e aceita múltiplas áreas. OSF Preprints é interdisciplinar. Se sua área não tiver um servidor específico, o OSF costuma ser uma boa opção geral.
Essas dúvidas mostram algo importante: o preprint ainda é um território relativamente novo para muitas pesquisadoras brasileiras. E como todo território novo, pede informação antes de navegação. Tomar decisões informadas sobre quando e como usar preprint é parte do desenvolvimento da autonomia científica.