Minha Primeira Apresentação em Congresso: Bastidores
Conto como foi a minha primeira apresentação em congresso científico: o nervosismo, os erros, o que aprendi e o que ninguém conta sobre esse ritual acadêmico.
O dia que nunca vou esquecer
Era um congresso de médio porte em Ribeirão Preto. Minha primeira apresentação oral num evento científico de verdade, não uma apresentação interna para o grupo de pesquisa, não um seminário da pós-graduação. Um congresso, com pessoas de outros estados, sala com cinquenta cadeiras, projetor que dependia de adaptador que eu não havia levado.
Vou contar isso com detalhes, porque acho que os detalhes são a parte mais honesta de qualquer bastidor.
A semana antes
Eu havia preparado a apresentação com três semanas de antecedência. Powerpoint impecável, texto nos slides na medida certa, sequência lógica. Tinha até praticado duas vezes sozinha no quarto.
Na semana do congresso, entrei em modo de catástrofe.
Comecei a encontrar problemas no trabalho que nunca havia visto antes. A amostra era pequena demais. A análise poderia ter sido mais sofisticada. A revisão de literatura tinha uma lacuna que não havia percebido. Esses pensamentos chegavam preferencialmente às onze da noite.
O que aconteceu foi que a proximidade da exposição pública amplificou todas as dúvidas latentes sobre o próprio trabalho. Isso é normal. É quase universal. E é irracional, porque o congresso não é o momento de resolver as fragilidades do trabalho. É o momento de apresentar o que foi feito e receber feedback.
Mas na semana antes da minha primeira apresentação, eu não sabia disso.
O dia da apresentação: cronologia honesta
Acordei duas horas mais cedo do que precisava. Tomei o café da manhã do hotel sem conseguir comer mais do que metade. Cheguei na sala vinte minutos antes do início da sessão, que estava vazia exceto pelo coordenador.
Aí descobri o adaptador. Meu notebook era MacBook, a sala tinha entrada HDMI padrão. O coordenador buscou um adaptador emprestado com a organização do evento. Levou quinze minutos.
Apresentação da pessoa antes da minha foi de dezoito minutos. A minha era para ser de quinze. Eu tinha praticado em vinte e dois.
Quando me levantei para apresentar, senti as mãos frias. Comecei. Voz um pouco mais aguda do que normal, falando rápido demais. No terceiro slide, percebi que havia pulo uma parte da contextualização que havia planejado incluir, e fiz uma escolha em tempo real: ou voltava e inseria, ou seguia em frente. Segui em frente.
Terminei em quatorze minutos.
A sessão de perguntas
Houve três perguntas. A primeira era de uma professora da área que tinha lido muito sobre o tema e fez uma pergunta sobre comparação com um estudo específico que eu não conhecia.
Eu disse que não conhecia aquele estudo e perguntei se ela poderia me passar a referência depois.
Isso foi o momento mais honesto daquela tarde. E funcionou muito melhor do que eu esperava. Ela ficou satisfeita, anotou o nome do artigo num pedaço de papel e me deu no final da sessão.
A segunda pergunta era sobre uma limitação metodológica que eu já sabia existir. Tinha até colocado no slide de limitações. Mas quando a pessoa perguntou, eu me peguei na defensiva brevemente antes de conseguir me reorientar e falar sobre ela com mais clareza.
A terceira era uma sugestão disfarçada de pergunta, do tipo “vocês consideraram fazer X?”. Respondi que não havíamos, mas que era uma direção relevante para pesquisas futuras. Aprendi depois que essa é a resposta padrão para sugestões que chegam tarde demais no processo.
O que aprendi que nenhum livro de metodologia ensina
A primeira coisa: ensaiar é diferente de apresentar. No ensaio, você controla tudo. Na apresentação real, há variáveis que você não controla: o adaptador, a temperatura da sala, a energia da audiência, a pergunta que você não esperava. O ensaio prepara o conteúdo. Mas só a experiência ensina a lidar com o contexto.
A segunda: a audiência não é sua inimiga. Eu havia chegado àquela sala com a sensação de que as pessoas estavam lá para julgar. Na realidade, a maioria das pessoas em sessões de congresso está com sua própria mente em movimento, preocupada com a própria apresentação, cansada de ouvir, ansiosa para fazer uma pausa. Elas não têm energia para análise hostil do seu trabalho.
A terceira: admitir que não sabe é muito mais digno do que improvisar uma resposta. No momento em que disse “não conheço esse estudo, poderia me passar a referência?”, a professora se tornou uma aliada em vez de uma avaliadora. A honestidade intelectual cria conexão.
A quarta: o feedback de congresso tem valor específico que o feedback interno não tem. Pessoas do seu próprio grupo de pesquisa, da sua própria orientadora, estão dentro do seu contexto. As perguntas de pesquisadores de outras instituições vêm de fora, e frequentemente identificam pontos cegos que quem está próximo não consegue ver.
O que mudou depois
Voltei daquele congresso com a referência que a professora havia me dado, com duas ideias para a discussão que as perguntas haviam gerado, e com uma convicção que ficou: apresentar em congresso é parte integrante de fazer pesquisa, não um ritual periférico de exibição.
O processo de transformar o que você fez em quinze minutos de comunicação oral obriga a um tipo de síntese que a escrita da dissertação não obriga da mesma forma. O que é essencial? O que pode ser omitido sem perder o argumento central? Por que isso deveria importar para quem está na sala?
Essas perguntas, quando respondidas para uma apresentação, retroalimentam a escrita. Os pesquisadores que apresentam regularmente em congressos costumam escrever com mais clareza do que os que nunca apresentam. Não é coincidência.
Para quem está se preparando para o primeiro
Se você está prestes a fazer sua primeira apresentação em congresso, o único conselho que daria sem hesitar é: ensaie o tempo, não só o conteúdo. Vá ao local mais cedo do que você planeja. E leve o adaptador.
O resto, você vai descobrir na hora. E vai sobreviver. Quase todo mundo sobrevive, e quase todo mundo sai um pouco diferente do que entrou.
Bastidores dos bastidores: o que acontece fora da sala
Congressos têm uma vida fora das sessões formais que a maioria das pessoas descobre só quando chega. Os corredores, o café, o almoço: é onde boa parte das conexões reais acontece.
Na minha primeira vez, eu não sabia disso. Fui direto para o quarto depois das sessões, exausta e aliviada. Fui ler aquele artigo que a professora havia me dado.
Só no segundo dia, numa fila de café, comecei uma conversa com uma doutoranda de outra universidade que estudava um tema tangente ao meu. Aquela conversa de cinco minutos numa fila rendeu um contato profissional que mantive por anos.
Isso é a parte que ninguém coloca no programa do congresso. O encontro não planejado, a conversa que começa por acaso, o colega que conhece um pesquisador que você estava tentando encontrar há meses.
Para a primeira apresentação, o objetivo óbvio é apresentar o trabalho. Mas o objetivo menos óbvio, e às vezes mais duradouro, é começar a existir dentro de uma comunidade científica. E isso acontece nos corredores, não só nos auditórios.
Uma nota sobre a síndrome do impostor em congresso
Quase toda pesquisadora que conheço sentiu, numa primeira apresentação, que de alguma forma estava no lugar errado. Que as outras pessoas eram mais preparadas, mais experientes, mais legitimas. Que alguém logo perceberia que ela não pertencia ali.
Esse sentimento tem um nome e é muito comum. O que não se fala suficientemente é que ele aparece não só na primeira vez. Aparece na décima, na vigésima. Em contextos novos, com audiências que você não conhece, diante de pesquisadores que você admira.
O que muda com a experiência não é a ausência do sentimento. É a capacidade de agir apesar dele. De subir ao palco com o coração acelerado e começar a falar assim mesmo. De estar nervosa e ser competente ao mesmo tempo, porque as duas coisas coexistem.
Primeira apresentação não cura a síndrome do impostor. Mas prova que é possível atravessá-la.