Professor Pesquisador vs Professor de Aula
A divisão entre docente que pesquisa e docente que ensina é real nas universidades brasileiras. O que muda na carreira, na progressão e na identidade de quem escolhe cada caminho.
A divisão que ninguém nomeia em voz alta
Vamos lá. Dentro de qualquer departamento universitário, existe uma divisão que todos conhecem e pouquíssimos discutem abertamente: o professor que pesquisa e o professor que dá aula.
Não é um cargo diferente. Não está escrito em lugar nenhum. Mas está presente nos corredores, nas reuniões de departamento, nas bancas de concurso e, principalmente, nos critérios silenciosos de prestígio acadêmico.
Quem publica tem bolsa de produtividade, orienta alunos de pós, participa de comitês, vira coordenador de programa. Quem não publica — mesmo que seja o melhor professor em sala de aula que aquele curso já teve — tende a acumular disciplinas, carregar o peso didático do departamento e ter trajetória mais invisível nos rankings que importam institucionalmente.
Esse post não é para dizer que pesquisa é mais importante que ensino. É para nomear essa divisão com honestidade, porque fingir que ela não existe não ajuda ninguém a navegar a carreira.
Por que essa divisão existe
A resposta curta é: CAPES.
O sistema de avaliação da pós-graduação brasileira mede, em larga medida, produção científica. Publicações em periódicos com Qualis, dissertações e teses defendidas, captação de financiamento, inserção internacional. Tudo isso entra na nota do programa — e a nota do programa afeta recursos, vagas de bolsas, credenciamento de novos professores.
O professor que alimenta esses indicadores tem valor institucional mensurável. O professor que dá seis disciplinas por semestre e forma excelentes profissionais não produz dado que entre nessa planilha.
Isso não é acidente. É resultado de escolhas sobre o que conta e o que não conta quando se avalia a qualidade de uma universidade. E essas escolhas têm consequências reais para quem está dentro do sistema.
O custo para quem opta pelo ensino
Existe um professor específico que esse sistema penaliza de forma injusta.
Ele (ou ela, frequentemente ela) é aquele docente que assumiu disciplinas básicas que ninguém queria, construiu material didático cuidadoso, acompanhou dezenas de trabalhos de conclusão de graduação, participou de comissões, mentoreou alunos que precisavam de atenção individual. Fez o trabalho invisível que mantém a graduação funcionando.
E no dia do concurso para promoção, na hora da solicitação de bolsa, quando os critérios são elencados — esse trabalho conta muito menos.
Não é que o sistema não valorize o ensino. É que o sistema criou formas de medir uma coisa e não criou para a outra. E o que não se mede tende a desaparecer das prioridades institucionais.
O que a pesquisa oferece que o ensino sozinho não oferece
Vou ser direta aqui, porque acho que meias-verdades não ajudam.
A pesquisa oferece, na estrutura atual da academia brasileira, coisas que o ensino sozinho não oferece: visibilidade extra-institucional, acesso a recursos (editais, financiamento), mobilidade (a publicação te conecta com outros grupos, com internacionalização), além de progressão mais rápida e reconhecimento nos índices que determinam quem “conta” nos rankings.
Isso não significa que você deve abandonar o ensino pela pesquisa. Significa que, se você está na universidade pública com pós-graduação e quer ter trajetória de alta progressão, não pesquisar tem custos concretos que valem ser antecipados.
O Método V.O.E. nasce exatamente dessa consciência: escrever bem e de forma organizada não é um luxo — é um instrumento de sobrevivência e crescimento na academia.
O professor que pesquisa e não ensina bem
Há outro lado nessa equação, e é honesto nomear também.
Existe o professor-pesquisador que tem currículo lattes excelente, bolsa de produtividade, publicações em Qualis A1 — e que é péssimo em sala de aula. Que chega tarde nas aulas de graduação, que não prepara material, que trata o ensino como obrigação menor. Que orienta três alunos de IC ao mesmo tempo que mal lembra os nomes deles.
Esse perfil também existe. E o sistema atual não cria incentivos suficientes para que ele mude.
O que estou defendendo não é que a pesquisa seja mais importante. Estou dizendo que o sistema brasileiro criou condições para que pesquisa e ensino coexistam em tensão, e que quem não entende essa tensão fica perdido ao tentar navegar a carreira.
Como as instituições tentam resolver (e por que não funciona)
Há tentativas pontuais de equilíbrio. Algumas universidades têm programas de reconhecimento de excelência no ensino. Algumas iniciativas tentam criar métricas para qualidade didática. O próprio sistema CAPES, em suas últimas revisões de área, começou a incluir indicadores de formação.
Mas essas iniciativas ainda têm peso marginal comparadas à produção científica.
O problema estrutural é mais fundo: não existe, no Brasil, um sistema equivalente ao da pesquisa para medir e financiar excelência pedagógica em nível nacional. Enquanto isso não existir, a divisão informal vai continuar.
O que isso muda para quem está entrando agora
Se você está no doutorado ou no pós-doc pensando em carreira docente, aqui está o que eu diria:
Entenda o perfil da instituição onde você quer trabalhar. Uma universidade federal com programa de pós-graduação nota 6 ou 7 vai ter critérios muito diferentes de uma faculdade privada regional. Saber para onde você está mirando muda o que você precisa construir agora.
Se a instituição valoriza pesquisa: não abandone o ensino, mas não seja ingênua sobre o peso relativo de cada coisa. Tenha clareza sobre as métricas que vão ser usadas para te avaliar e trabalhe com elas conscientemente.
Se a instituição valoriza ensino: invista nisso sem culpa. Formação pedagógica, material didático, inovação metodológica — essas coisas têm valor real nesses contextos, mesmo que não apareçam no Lattes.
E em qualquer cenário: saiba que essas identidades não são excludentes. É possível ser professor que pesquisa E ensina bem. A tensão está no sistema, não necessariamente em você.
O que eu penso sobre isso
Olha, me arrisco a dizer uma posição:
Acho que o sistema atual penaliza de forma injusta professores excelentes que escolheram (ou foram levados a) carregar o ensino. E acho que isso afeta desproporcionalmente mulheres, que historicamente acumulam mais responsabilidades didáticas e administrativas e têm menor tempo para pesquisa.
Ao mesmo tempo, acho que fingir que pesquisa e ensino têm o mesmo peso na academia atual é uma ilusão que faz mal para quem acredita nela. Melhor ter clareza sobre as regras do jogo — mesmo que você discorde delas — do que ser surpreendida quando as consequências chegam.
A academia vai continuar tendo essa tensão por um bom tempo. Enquanto isso, vale entender onde você quer estar dentro dela — e construir conscientemente a partir daí.
A pergunta que vale fazer para você mesma
No fundo, a divisão professor-pesquisador vs. professor de ensino levanta uma questão de identidade que vai além de estratégia de carreira.
O que te move dentro da academia? É o processo de investigar, publicar, contribuir para a produção de conhecimento da área? Ou é o contato com os alunos, ver alguém entender um conceito difícil pela primeira vez, ajudar uma pessoa a escrever melhor, a pensar com mais clareza?
As duas coisas podem coexistir. Mas geralmente uma é o motor principal — e saber qual é a sua muda o que faz sentido priorizar quando você tem que escolher.
Não existe resposta certa. Existe resposta honesta.
Uma professora que ama pesquisar e se força a ser “mais pedagógica” porque acha que deveria vai ter uma trajetória menos coerente do que outra que entendeu sua motivação principal e construiu a partir dela. O mesmo vale para quem ama ensinar e se culpa por não publicar o suficiente.
A pergunta “professor pesquisador ou professor de aula?” não tem que ser resolvida em definitivo no começo da carreira. Mas vale ser feita com frequência, com honestidade, sem romantismo e sem auto-punição.
Faz sentido para onde você está indo agora?