Protocolo PRISMA: O Que É e Como Aplicar em Revisões
Entenda o que é o Protocolo PRISMA, para que ele serve em revisões sistemáticas e como aplicar o fluxograma de seleção de estudos na sua pesquisa.
O que é o Protocolo PRISMA e por que ele existe
Revisão sistemática não é pilha de artigos organizada por tema. É um método.
O Protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) é um conjunto de diretrizes para relatar revisões sistemáticas e meta-análises de forma transparente e reprodutível. O PRISMA é um guia de relato, não um guia de condução. Ele diz o que você precisa reportar no seu artigo, não exatamente como fazer cada etapa da revisão.
Essa distinção importa porque pesquisadoras confundem as duas coisas. Seguir o PRISMA não garante que a revisão foi bem conduzida. Significa que você documentou o processo de forma que outros possam avaliar se foi bem conduzida. São coisas diferentes.
O protocolo foi criado para resolver um problema concreto: revisões sistemáticas publicadas sem descrição suficiente do processo de busca e seleção não podem ser replicadas nem avaliadas criticamente. O leitor não consegue saber se os resultados refletem a literatura ou os vieses do revisor.
Para que tipo de estudo o PRISMA se aplica
O PRISMA foi desenvolvido para revisões sistemáticas e meta-análises de estudos sobre intervenções, mas foi adaptado ao longo dos anos para outros contextos.
A versão principal (PRISMA 2020) cobre revisões sistemáticas em geral. Há extensões para situações específicas: PRISMA-P para protocolos de revisão antes de executá-la, PRISMA-ScR para revisões de escopo (scoping reviews), PRISMA-IPD para meta-análises com dados individuais de participantes, entre outras.
Se você está fazendo uma revisão de escopo, é o PRISMA-ScR que se aplica, não o PRISMA principal. A diferença está nos critérios de elegibilidade e nas perguntas de pesquisa. Revisões de escopo mapeiam o campo sem necessariamente sintetizar efeitos de intervenções.
Para trabalhos de pós-graduação em ciências da saúde, educação e ciências sociais aplicadas, o PRISMA aparece com frequência como requisito de bancas e periódicos. Vale verificar o escopo exato da sua revisão antes de escolher qual extensão usar.
A estrutura do PRISMA 2020: checklist e fluxograma
O PRISMA tem duas partes principais que funcionam juntas.
A checklist lista os itens que precisam estar descritos no texto do artigo. Na versão 2020, são 27 itens organizados em seções como título, resumo, introdução, métodos e resultados. Cada item especifica o que deve ser reportado, com orientações sobre onde isso geralmente aparece no manuscrito.
Alguns exemplos de itens da checklist: a pergunta de pesquisa estruturada (idealmente no formato PICO ou similar), a lista completa das bases de dados consultadas com as strings de busca, os critérios de elegibilidade explicitados antes de executar a busca, o processo de triagem dos registros, e os métodos de avaliação do risco de viés dos estudos incluídos.
O fluxograma é o diagrama visual que acompanha o artigo e mostra os números em cada etapa da seleção. A estrutura padrão tem quatro fases: identificação (total de registros encontrados), triagem (registros depois de remover duplicatas), elegibilidade (registros avaliados em texto completo) e inclusão (estudos na síntese final).
Cada fase tem setas mostrando quantos registros foram excluídos e por quê. Essa visualização permite que o leitor entenda rapidamente a proporção de estudos que sobreviveram a cada filtro e se os motivos de exclusão fazem sentido para a pergunta de pesquisa.
Como o fluxograma PRISMA funciona na prática
Olha só como o fluxo funciona em termos concretos.
Você começa com a fase de identificação. Aqui você registra o número total de registros recuperados em cada base de dados consultada, mais os registros provenientes de outras fontes (lista de referências, especialistas consultados, registros de ensaios clínicos). Esses números são somados para dar o total de registros identificados.
Na triagem você remove duplicatas e registros claramente irrelevantes pelo título e resumo. O número que sobra passa para a próxima fase com um motivo claro de exclusão documentado.
Na elegibilidade você avalia os textos completos dos artigos que passaram pela triagem. Aqui a exclusão é mais criteriosa, com motivos específicos para cada artigo excluído: não atende ao critério de população, intervenção fora do escopo, desfecho não medido, período fora da janela temporal.
A fase de inclusão registra os estudos que entraram na síntese. Se for meta-análise, um subgrupo pode entrar na síntese quantitativa separadamente.
Cada transição entre fases tem números que precisam fechar. Se você identificou 800 registros e incluiu 12 estudos, as exclusões intermediárias precisam somar corretamente. Revisores de periódicos verificam essa consistência.
Erros comuns ao usar o PRISMA
O erro mais frequente é usar o fluxograma PRISMA em revisões que não são sistemáticas. Revisão narrativa, revisão integrativa sem protocolo registrado, ou levantamento bibliográfico para fundamentação teórica não são revisões sistemáticas. Colocar um fluxograma PRISMA nesses contextos não os torna sistemáticos, e gera problemas na avaliação de bancas e revisores.
Outro erro é preencher o fluxograma com números aproximados ou retrospectivos. O PRISMA pressupõe que o processo foi documentado enquanto acontecia. Se você fez a busca sem registrar os números em cada base, vai ter dificuldade de reconstruir isso com precisão depois. O fluxograma fica inconsistente.
Também é comum não registrar o protocolo da revisão antes de executá-la. Plataformas como o PROSPERO existem para isso. Registrar o protocolo com antecedência evita acusação de cherry-picking de resultados e aumenta a credibilidade da revisão. Alguns periódicos exigem o número de registro no PROSPERO para aceitar a submissão.
Por fim, muitas pesquisadoras preenchem a checklist como formalidade, marcando todos os itens sem verificar se o conteúdo descrito no texto realmente atende ao que o item pede. A checklist não é uma lista de presença. É uma ferramenta de auditoria do próprio trabalho.
PRISMA e o Método V.O.E.
O Método V.O.E. (Visualizar, Organizar, Escrever) se aplica diretamente à revisão sistemática. Na fase de Visualizar, você define a pergunta de pesquisa, os critérios de elegibilidade e as bases de dados antes de executar qualquer busca. Na fase de Organizar, você estrutura o processo de triagem, os formulários de extração de dados e a avaliação do risco de viés. A fase de Escrever é onde o PRISMA entra com mais força, garantindo que o relato é completo.
Pesquisadoras que tentam fazer a revisão e o relato ao mesmo tempo (escrevendo e buscando em paralelo) têm mais dificuldade de preencher o PRISMA adequadamente, porque perderam o rastro das decisões tomadas ao longo do processo. Documentar enquanto faz é um hábito que o V.O.E. treina.
Como acessar e usar o material oficial
O PRISMA 2020 está disponível gratuitamente em prisma-statement.org. O site tem a checklist em vários idiomas, o fluxograma em formato editável, as extensões para diferentes tipos de revisão e artigos metodológicos publicados em periódicos de acesso aberto explicando cada item.
Para o fluxograma, há modelos editáveis disponíveis em Word, PowerPoint e como diagramas online. Você não precisa criá-lo do zero. O que precisa é preencher os números corretos e garantir que as exclusões são justificadas.
Se você está escrevendo uma revisão sistemática pela primeira vez, a leitura do artigo de Page et al. (2021) que descreve a atualização para o PRISMA 2020 é um bom ponto de partida. Ele explica as mudanças em relação à versão anterior e os motivos de cada ajuste.
Fechamento
O PRISMA não garante uma boa revisão sistemática. Garante que você vai conseguir explicar o que fez. E na ciência, isso importa quase tanto quanto fazer bem.
Se você não consegue descrever como chegou nos estudos que incluiu, a revisão não é reprodutível. Se não é reprodutível, não é sistemática no sentido que o termo implica.
Faz sentido?
Para aprofundar a estrutura da sua revisão antes de começar a busca, o Método V.O.E. tem orientações sobre como organizar o processo de pesquisa. E se você está procurando editais e programas onde revisões sistemáticas têm espaço, confira os recursos disponíveis.
A string de busca e os critérios de elegibilidade: dois pontos que o PRISMA expõe
Quando você preenche o PRISMA de forma honesta, dois elementos ficam visíveis de um jeito que revisões menos rigorosas conseguem esconder.
O primeiro é a string de busca. O PRISMA pede que você reporte a string exata usada em cada base de dados. Isso inclui os operadores booleanos, os descritores MeSH quando aplicável, e os filtros usados (período, idioma, tipo de estudo). Uma string vaga ou muito ampla vai produzir milhares de registros; uma muito restrita vai produzir poucos e deixar de fora estudos relevantes. Nem uma coisa nem outra é necessariamente erro, mas os dois precisam ser justificados.
O segundo é o critério de elegibilidade. O PRISMA exige que você descreva os critérios de inclusão e exclusão de forma que alguém possa reproduzir a triagem. Se o critério é “estudos publicados nos últimos dez anos em português ou inglês com amostras adultas” isso precisa estar documentado antes da triagem, não construído depois para justificar os estudos que você acabou incluindo.
Esses dois pontos revelam algo sobre a qualidade da revisão que o texto corrido do artigo nem sempre deixa claro. Uma revisora experiente olha para a string e para os critérios e já tem uma leitura preliminar do rigor metodológico antes de ler os resultados.
O que acontece quando você não usa o PRISMA onde deveria
Revistas indexadas em bases como Web of Science, Scopus e PubMed têm guidelines de submissão que especificam o uso do PRISMA para revisões sistemáticas. Submeter uma revisão sistemática sem o fluxograma e sem referência à checklist é um dos caminhos mais rápidos para receber uma rejeição por razões metodológicas antes que o conteúdo seja avaliado.
Bancas de pós-graduação também avaliam isso. Especialmente em áreas da saúde, educação e psicologia, a ausência do PRISMA numa revisão sistemática que integra uma dissertação ou tese levanta perguntas sobre a condução do estudo que podem complicar a defesa.
Vale lembrar que o PRISMA pode ser usado como instrumento de autocrítica antes da submissão. Se você não consegue preencher um item da checklist, provavelmente é porque aquela parte do processo não foi documentada ou não foi feita. Melhor descobrir isso antes da submissão do que no comentário do revisor.
PRISMA e revisão de literatura para dissertação ou tese
Um ponto que gera confusão: o capítulo de revisão de literatura de uma dissertação ou tese, quando conduzido como revisão sistemática, se beneficia do PRISMA. Mas a maioria dos capítulos de revisão de literatura não é uma revisão sistemática. São revisões narrativas ou integrativas sem protocolo registrado.
Se o seu orientador pediu “uma revisão sistemática da literatura” e o que foi feito na prática foi uma busca em duas bases com triagem informal, o PRISMA vai deixar isso visível quando você tentar preenchê-lo. Isso não é problema do PRISMA. É informação útil para decidir se a revisão precisa ser refeita com mais rigor ou se o termo “sistemática” precisa ser revisado.
Converse com seu orientador sobre a terminologia antes de adotar o PRISMA. Se a revisão é narrativa e está bem fundamentada, ela tem valor. Chamar de sistemática sem o processo correspondente é o que cria o problema.
Perguntas frequentes
O que é o Protocolo PRISMA e para que serve?
O PRISMA é obrigatório em artigos de revisão sistemática?
Qual a diferença entre o fluxograma PRISMA e a checklist PRISMA?
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