Posicionamento

Publish or Perish Está Matando Pesquisadores: Minha Posição

A lógica do publish or perish pressiona pesquisadores a publicar mais, não melhor. Entenda por que isso prejudica a ciência e o que precisa mudar.

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Publicar ou perecer: quando a pressão vira o ponto central da carreira científica

Olha só: não existe pesquisador sério que não conheça a expressão. Publish or perish. Publique ou pereça. Em qualquer língua, o recado é o mesmo. Sua existência na academia depende do seu volume de publicações.

Vou ser direta sobre onde estou nessa discussão. Acho que a lógica do publish or perish, na forma como opera hoje, prejudica a ciência. E acho que essa é uma conversa que precisamos ter em voz alta, sem eufemismos.

Não estou dizendo que publicar é errado. Estou dizendo que quando o indicador se torna o objetivo, algo fundamental vai junto.

O que a lógica do publish or perish faz com a pesquisa

Vamos lá. Quando o critério para medir a qualidade de um pesquisador é o número de publicações, você cria incentivos perversos quase que automaticamente.

O primeiro efeito é a fragmentação. Um conjunto de dados que poderia virar um artigo robusto e completo vira três ou quatro artigos menores. Cada um com contribuição limitada, mas cada um somando ao contador. Isso tem até nome: salami slicing. É uma prática conhecida, documentada e, em muitos contextos, aceita tacitamente.

O segundo efeito é o viés de publicação. Resultados positivos, que confirmam hipóteses, são publicados. Resultados negativos ou nulos, mesmo quando metodologicamente impecáveis, ficam na gaveta. Isso distorce o corpo de conhecimento disponível de uma área inteira. Quando você só lê artigos que “deram certo”, tem uma visão incompleta e sistematicamente enviesada da evidência.

O terceiro efeito é mais sutil. Pesquisadores passam a escolher perguntas que são rápidas de responder, baratas de testar e fáceis de publicar, em vez das perguntas que mais importam. Pesquisa incremental, segura, formatável. A curiosidade genuína cede espaço para a calculabilidade editorial.

O problema com a contagem de artigos como medida de valor

Faz sentido pensar assim: se alguém publicou muito, deve saber muito, né? A lógica intuitiva existe. O problema é que produção em quantidade não é o mesmo que produção em qualidade.

Um artigo em um periódico de alto impacto sobre uma questão genuinamente nova e metodologicamente rigorosa vale mais, para a ciência, do que dez artigos mediocres em periódicos de baixa exigência. Mas se o sistema conta um artigo como um artigo, os incentivos são claros.

A criação de rankings de periódicos, sistemas de pontuação e avaliações baseadas em métricas tentou resolver isso. O Qualis brasileiro, os fatores de impacto, os índices h. Cada um com seus méritos e seus problemas específicos. Mas nenhum resolve o problema de base: quando a avaliação é quantitativa, pesquisadores otimizam para a contagem.

E não é uma crítica moral às pessoas. É uma resposta racional a um sistema de incentivos. Se sua contratação, sua promoção, sua bolsa dependem de um número, você vai buscar esse número. É assim que sistemas funcionam.

O que isso tem a ver com você, pesquisadora em formação

Se você está no mestrado ou doutorado, talvez esteja se perguntando por que isso importa agora. Você ainda não é docente. Ainda não tem a pressão de produção de quem está num programa de pós-graduação avaliando pesquisadores seniores.

Mas você vai ser avaliada por esse sistema. E mais importante: você está aprendendo a pesquisar dentro de uma cultura moldada por ele.

Isso significa que vai ouvir orientadores falando em “fatiar” resultados. Vai ser pressionada a submeter antes de estar pronta. Vai aprender, por osmose, que o que importa é a lista de publicações, não o processo de descoberta.

Entender a lógica do sistema é o primeiro passo para não ser completamente capturada por ela. Você pode produzir bem dentro de um sistema com problemas. Mas é diferente fazer isso sabendo o que está acontecendo do que fazer acreditando que a contagem de artigos é um bom indicador de contribuição científica.

O que funciona e o que precisaria mudar

Quero ser honesta sobre os limites do que sei aqui. Não tenho uma solução mágica para o publish or perish. O problema é estrutural: envolve como universidades são avaliadas, como agências de fomento distribuem recursos, como periódicos funcionam, como carreiras são construídas.

Mas algumas movimentações existem e merecem atenção.

A ciência aberta, por exemplo, está pressionando por mais transparência nos dados e nos pré-registros de estudos, o que torna mais difícil o viés de publicação operar silenciosamente. Quando você pré-registra uma hipótese antes de coletar dados, o resultado negativo fica visível independentemente do que você publica depois.

Periódicos de resultados negativos existem, mesmo que ainda marginais. A ideia é que um estudo metodologicamente sólido que não confirmou a hipótese principal é informação valiosa e deveria circular.

Avaliações qualitativas, que olham para a qualidade e impacto das publicações em vez de apenas a contagem, estão sendo discutidas em vários sistemas de pós-graduação. A CAPES, no Brasil, passou por revisões nesse sentido, ainda que o sistema de avaliação continue baseado em métricas complexas.

São movimentos. Não são soluções completas.

A diferença entre publicar bem e publicar muito

Esse é o ponto que me importa mais nessa conversa. Existe uma diferença real entre uma pesquisadora que publica porque tem algo a dizer e uma pesquisadora que publica para cumprir um requisito.

As duas podem terminar com listas parecidas de publicações. Mas o processo é diferente. A relação com o conhecimento é diferente. O que fica na área é diferente.

Você pode aprender a escrever bem, a estruturar argumentos, a comunicar achados com clareza e rigor. Isso é uma habilidade genuína e valiosa. O Método V.O.E. parte justamente dessa ideia: que a escrita acadêmica de qualidade não é um talento nato, é uma prática que se desenvolve.

Mas desenvolver essa prática dentro de um sistema que valoriza quantidade exige consciência. Exige saber que o sistema está tentando fazer de você uma máquina de artigos, e que você pode ser uma pesquisadora que escreve com intenção.

Por que não dá para ignorar essa conversa

Existe uma tendência na academia de tratar as críticas ao publish or perish como ingenuidade. “É assim que funciona. Ou você joga, ou sai do jogo.”

Eu entendo o pragmatismo. Realmente entendo. Não estou dizendo que você deveria sabotar sua carreira em nome de princípios. As pressões são reais e as consequências de não cumprir métricas também são.

Mas o pragmatismo cínico que normaliza tudo como inevitável tem um custo. Para a ciência, porque a produção de conhecimento fica distorcida. Para as pessoas, porque pesquisadores adoecem, se esgotam e abandonam carreiras que poderiam ser significativas.

Essa conversa importa porque a academia não é um bloco monolítico que jamais muda. Ela muda quando pessoas dentro dela nomeiam os problemas, propõem alternativas e insistem em fazer diferente dentro do que é possível.

Eu prefiro fazer essa escolha de forma consciente do que deixar o sistema fazer por mim.

Para fechar: minha posição de verdade

Publish or perish, como lógica dominante, é um problema para a ciência e para as pessoas que fazem ciência. Não porque publicar seja ruim. Mas porque quando o indicador vira o objetivo, o objetivo original, que era gerar conhecimento relevante, fica em segundo plano.

Você não vai resolver isso sozinha. Nenhuma de nós vai. Mas você pode se posicionar de forma mais consciente dentro do sistema, entender os incentivos que estão operando sobre você, e fazer escolhas que preservem o que te trouxe para a pesquisa em primeiro lugar.

Curiosidade. Rigor. O prazer genuíno de entender algo que ninguém entendeu da mesma forma antes.

Isso vale mais do que qualquer contador de artigos. Faz sentido?

Tem uma coisa que eu sempre digo para pesquisadoras que estão começando: aprenda a jogar o jogo sem deixar o jogo te definir. Entenda como funciona a avaliação, cumpra os requisitos que são possíveis cumprir com integridade, mas mantenha vivo o motivo pelo qual você entrou na academia. Porque o dia que o counter de publicações virar mais importante do que a pergunta de pesquisa, algo essencial já foi perdido.

Perguntas frequentes

O que significa publish or perish na academia?
Publish or perish é a expressão que descreve a pressão sobre pesquisadores para publicar constantemente em periódicos acadêmicos como condição para manter empregos, conseguir financiamento e progredir na carreira. Quem não publica com frequência pode perder posições, bolsas ou espaço institucional.
Publish or perish prejudica a qualidade da ciência?
Sim. Quando o foco é na quantidade de publicações, surgem problemas como fragmentação de resultados em vários artigos menores (salami slicing), pressão para publicar achados positivos mesmo quando os negativos seriam igualmente valiosos, e pesquisas superficiais desenhadas para gerar publicação rápida em vez de responder perguntas relevantes.
Como o publish or perish afeta a saúde mental dos pesquisadores?
Estudos com pós-graduandos e docentes de múltiplos países mostram taxas elevadas de ansiedade, burnout e síndrome do impostor associadas à pressão por publicação. A lógica avaliativa que reduz o valor de um pesquisador à sua lista de publicações contribui para um ambiente acadêmico cronicamente estressante.
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