Estrutura de um artigo científico segundo a ABNT
Entenda a estrutura de um artigo científico pelas normas ABNT: o que cada seção deve conter, como organizar e o que as revistas científicas esperam.
Artigo científico não é texto corrido. Tem lógica de construção.
Vamos lá. A estrutura de um artigo científico não é burocracia por burocracia. Cada parte tem uma função específica e serve ao leitor: quem está avaliando o trabalho precisa encontrar as informações certas no lugar certo.
Quando um revisor de periódico abre um artigo, sabe exatamente onde procurar o objetivo, onde está a metodologia, como foram apresentados os resultados. Se a estrutura está errada ou confusa, o artigo já começa em desvantagem, mesmo que o conteúdo seja bom.
A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) estabelece os padrões para artigos científicos por meio da NBR 6022, atualizada em 2018. Ela organiza os elementos em pré-textuais, textuais e pós-textuais. Vamos percorrer cada um.
Elementos pré-textuais
São as informações que aparecem antes do texto principal do artigo. Funcionam como o cartão de apresentação do trabalho.
Título e subtítulo — deve ser informativo, conciso e refletir o conteúdo. Pode ser em dois idiomas (português e inglês, por exemplo). Evite títulos genéricos demais ou longos demais. A maioria dos periódicos sugere até 15 palavras.
Autoria — nome completo dos autores, afiliação institucional e e-mail de contato do autor responsável. Em artigos com múltiplos autores, a ordem de autoria segue critérios acordados entre o grupo. Não é aleatória.
Resumo — texto corrido sem parágrafos, entre 100 e 250 palavras para artigos, conforme a NBR 6028. Deve conter: objetivo do estudo, método utilizado, principais resultados e conclusões. Não pode ter referências, tabelas, figuras ou fórmulas. É esse texto que vai aparecer nas bases de dados e vai determinar se o leitor abre o artigo inteiro.
Palavras-chave — entre 3 e 6 termos que representam os principais conceitos do artigo. Devem aparecer logo abaixo do resumo, precedidas pela expressão “Palavras-chave:”. São os termos pelos quais seu artigo vai ser encontrado nas buscas.
Abstract e keywords — versão em inglês do resumo e das palavras-chave, obrigatórios na maioria dos periódicos brasileiros de circulação nacional e internacional.
Elementos textuais: onde o artigo acontece de fato
Introdução — apresenta o problema de pesquisa, contextualiza a relevância do tema, faz uma síntese do estado do conhecimento na área e enuncia o objetivo do estudo. Não é uma revisão de literatura extensa. É uma contextualização que justifica por que esse artigo precisa existir.
Uma introdução bem feita responde: o que eu estou pesquisando, por que isso importa, o que já se sabe sobre isso, e o que especificamente este artigo vai contribuir.
Desenvolvimento — o corpo central do artigo, que varia conforme a área. Em ciências da saúde e exatas, é comum a divisão explícita em seções: Metodologia (ou Métodos), Resultados e Discussão. Em humanidades, essas partes podem se integrar numa estrutura narrativa mais fluida.
A metodologia descreve como a pesquisa foi realizada: delineamento, participantes ou corpus, instrumentos, procedimentos de coleta e análise. Deve ser detalhada o suficiente para replicação, mas sem excesso de informações que pertencem ao referencial teórico.
Os resultados apresentam os dados obtidos de forma organizada, sem interpretação excessiva. Tabelas, gráficos e figuras podem complementar o texto, mas não substituem a descrição escrita.
A discussão é onde você interpreta os resultados à luz do referencial teórico, dialoga com estudos anteriores, explica divergências e convergências, e aponta as implicações dos achados.
Conclusão — síntese das principais contribuições do estudo, resposta objetiva ao problema de pesquisa, limitações do trabalho e sugestões para estudos futuros. Não deve introduzir informações novas. É o fechamento do argumento iniciado na introdução.
Elementos pós-textuais
Referências — lista de todas as fontes citadas no texto, organizadas conforme a NBR 6023. Não são “obras consultadas”. São apenas as que aparecem no corpo do artigo. A formatação varia por tipo de fonte (livro, artigo, tese, site), e a norma da ABNT é bastante detalhada nesses critérios.
Agradecimentos — opcional. Aparecem antes das referências. Costumam mencionar agências de fomento, colaboradores e apoio institucional.
Apêndices e anexos — opcionais. Apêndice é material produzido pelo autor (questionário, protocolo, roteiro de entrevista). Anexo é material de terceiros utilizado como suporte.
O que os periódicos exigem além da ABNT
Aqui está um ponto que muita gente ignora: a ABNT é o padrão geral brasileiro, mas cada periódico tem suas próprias diretrizes para autores, que podem diferir da norma.
Antes de submeter, leia o guia para autores do periódico onde você quer publicar. Limite de palavras por seção, formatação de tabelas, exigências de declaração de conflito de interesse, número de referências permitidas, e às vezes até a estrutura das seções podem ser diferentes do padrão ABNT.
Enviar um artigo mal formatado para o periódico certo é uma forma garantida de ter a submissão devolvida antes de passar pelo processo de revisão.
Tipos de revisão por pares e o que esperar
Depois de submeter o artigo, ele passa pelo processo de revisão por pares. É o mecanismo que periódicos usam para avaliar a qualidade científica do trabalho antes da publicação.
Os modelos mais comuns são:
Revisão simples cega: os revisores conhecem a identidade dos autores, mas os autores não sabem quem são os revisores.
Revisão duplo-cega: nem autores nem revisores se identificam durante o processo. É o modelo mais comum em periódicos de ciências humanas e sociais.
Revisão aberta: identidades são reveladas após a aceitação ou ao longo do processo. Menos comum, mas crescente em periódicos de acesso aberto.
O resultado da revisão pode ser: aceito sem modificações (raro), aceito com revisões menores, revisão maior necessária antes de nova decisão, ou rejeição. Revisão maior ou rejeição não significa que o artigo é ruim: pode significar que precisa de ajustes metodológicos, de argumentação ou de adequação ao escopo do periódico.
Antes de submeter: uma revisão final que vale fazer
Muitas rejeições de artigos acontecem por problemas evitáveis que uma revisão cuidadosa antes da submissão teria identificado.
Verifique: o título reflete o que o artigo entrega? O resumo cobre objetivo, método, resultados e conclusão? As palavras-chave estão corretas e consistentes com os termos usados no texto? As referências estão formatadas conforme a norma do periódico? O texto está dentro do limite de palavras?
Peça para alguém da área ler o artigo antes de submeter. Não necessariamente para encontrar erros técnicos, mas para verificar se o argumento é claro para um leitor que não estava presente na pesquisa.
A revisão pré-submissão é uma etapa que frequentemente é pulada por ansiedade de submeter logo. Resistir a esse impulso e revisar com calma aumenta as chances de aprovação na primeira rodada.
Como escolher o periódico certo para submeter
A escolha do periódico é parte da estratégia de publicação e precisa acontecer antes da escrita, não depois.
Periódico adequado é aquele que publica artigos com o mesmo escopo temático e metodológico do seu trabalho, com o nível de qualificação desejado (no sistema Qualis Capes, se você está no contexto brasileiro) e que aceita o tipo de artigo que você está escrevendo.
Verificar artigos publicados recentemente no periódico é uma forma prática de calibrar se o seu trabalho se encaixa. Se o periódico publica predominantemente estudos quantitativos de larga escala e o seu é um estudo qualitativo com 12 participantes, provavelmente não é o lugar certo, independentemente da qualidade do trabalho.
Submeter para o periódico errado resulta em rejeição sem revisão por escopo. Isso não significa que o artigo é ruim. Significa que o trabalho de escolha do periódico não foi feito com atenção.
Estrutura e argumento precisam andar juntos
A estrutura é o mapa. O argumento é o conteúdo que vai dentro. Um artigo pode estar estruturalmente correto e ser fraco no conteúdo. Também pode ter ideias excelentes e perder força por estar mal organizado.
O que faz um artigo científico funcionar é quando a estrutura serve o argumento: a introdução cria a expectativa que a conclusão vai cumprir, a metodologia justifica os resultados apresentados, e a discussão conecta os dados com a literatura de forma que o leitor consiga ver a contribuição.
Quando você entende essa lógica, a estrutura para de ser um obstáculo e passa a ser uma ferramenta.