Qualis Acabou? O Que Muda na Avaliação de Artigos
O Qualis CAPES mudou. Entenda o que aconteceu com o sistema de classificação de periódicos e o que isso significa para pesquisadores brasileiros.
A letra que definia carreiras
Quem está ou já passou pela pós-graduação brasileira sabe do peso que uma letra pode ter. A1. A2. B1. Essas classificações do Qualis CAPES não são apenas rótulos editoriais, são moeda corrente na carreira acadêmica: definem o valor de um artigo no currículo Lattes, influenciam bolsas, credenciamento de orientadores e avaliação de programas.
Por décadas, o sistema funcionou como um árbitro — ainda que imperfeito — do que conta como publicação de qualidade no Brasil. Agora ele está passando por uma transformação que ainda está sendo processada pelo campo.
Minha posição sobre isso? O Qualis nunca foi um bom sistema. Mas o que pode vir no lugar pode ser ainda mais problemático, se não formos cuidadosos.
O que era o Qualis original
Para quem não viveu de perto: o Qualis era um sistema de classificação de periódicos científicos mantido pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Cada área do conhecimento classificava os periódicos em estratos que iam de A1 (mais alto) até C (não recomendado).
O problema é que cada área classificava à sua maneira. Uma revista A1 em Ciências Sociais não tinha necessariamente o mesmo peso que uma A1 em Biomedicina. A comparação entre áreas era inconsistente.
Além disso, o sistema era atualizado raramente — às vezes a cada quatro anos, outras vezes mais. Num campo onde novos periódicos surgem constantemente e antigas revistas mudam de qualidade, uma classificação estática envelhece rápido.
Outro problema clássico: o Qualis incentivava publicar em determinados periódicos porque eles tinham boa classificação, independentemente de se eram os mais relevantes para a área de pesquisa. A cauda passou a abanar o cachorro.
O que mudou com o novo modelo
A avaliação quadrienal 2025-2029, que a CAPES começou a implementar, trouxe mudanças significativas. O modelo anterior de estratificação rígida em letras está sendo substituído por uma abordagem mais descentralizada.
Cada área passou a ter mais autonomia para definir seus critérios de qualidade de publicação. Algumas áreas adotaram o índice CiteScore do Scopus como referência. Outras mantêm critérios próprios. A uniformidade do sistema antigo está cedendo lugar a uma pluralidade de métricas.
Isso tem defensores e críticos.
Os defensores dizem que um sistema único não consegue capturar a diversidade de práticas de publicação entre campos tão diferentes como Matemática, Antropologia e Medicina.
Os críticos dizem que a descentralização cria opacidade e dificulta comparações necessárias para a gestão do sistema.
Por que o fator de impacto não é a resposta
Com o enfraquecimento do Qualis, cresce a pressão para adotar o fator de impacto das revistas — o famoso Impact Factor do Journal Citation Reports (JCR) — como métrica universal.
Olha só o problema com isso: o fator de impacto mede quantas vezes os artigos publicados numa revista foram citados em outros artigos, em média, nos últimos dois anos. Parece razoável. Mas tem distorções sérias.
Primeiro, favorece enormemente as ciências biomédicas e exatas, que têm muito mais volume de publicação e citação do que ciências humanas e sociais. Um pesquisador de Letras publicando numa das melhores revistas de sua área nunca vai ter os números de citação de quem publica em Cell ou Nature.
Segundo, incentiva práticas questionáveis: autocitação excessiva, acordos de citação entre grupos, pressão sobre autores para citar artigos da mesma revista (citação coercitiva).
Terceiro, ignora impacto regional. Uma revista brasileira de Direito que influencia legislação e jurisprudência no país tem impacto real, mas baixo fator de impacto porque o circuito de citações é regional, não global.
O problema do Qualis não é que mede impacto. É que mede mal. Substituí-lo por outra métrica imperfeita não é solução.
O que permanece importante para pesquisadores
Independentemente da letra ou da métrica, algumas coisas continuam sendo critério de qualidade editorial e valem a pena considerar:
Se o periódico tem revisão por pares rigorosa, com revisores externos à equipe editorial. Se tem corpo editorial reconhecido na área. Se está indexado nas principais bases de dados da sua área (Scopus, WoS, SciELO, PubMed). Se tem taxa de aceitação razoável e processo editorial transparente. Se está ativo e com periodicidade cumprida.
A combinação desses fatores diz mais sobre a qualidade de um periódico do que qualquer letra isolada.
O efeito colateral que ninguém quer falar
A transição entre sistemas de avaliação tem um efeito colateral sério: incerteza. E incerteza na carreira acadêmica é paralisante.
Pesquisadores em fases críticas, construindo currículo para concursos ou credenciamento, ficam sem saber quais revistas priorizar. Programas de pós-graduação ficam inseguros sobre como serão avaliados. Orientadores perdem um critério de orientação — “publique em A1” era ao menos claro, mesmo que problemático.
Essa incerteza afeta desproporcionalmente pesquisadores mais jovens, que têm menos margem para errar na escolha do periódico.
Minha posição sobre tudo isso
Não sinto falta do Qualis como ele era. Era um sistema que criava distorções, incentivava comportamentos questionáveis e tratava campos de conhecimento muito distintos como se pudessem ser comparados numa mesma escala.
Mas tenho preocupação com o que vem no lugar. A descentralização pode criar mais equidade entre áreas. Pode também criar feudos editoriais, onde quem tem mais poder na área define o que conta. A transparência do processo de classificação é crítica — e ainda está pouco clara.
O que eu espero: que a comunidade científica brasileira use esse momento de transição para pensar, de verdade, no que queremos valorizar na pesquisa. Não só o que é publicável, mas o que tem impacto real.
Fechando: a letra nunca deveria ser o fim
A publicação científica tem um propósito: comunicar conhecimento, contribuir para o campo, avançar a ciência. Quando o sistema de avaliação torna a letra do periódico mais importante do que a qualidade e a relevância do trabalho, algo saiu errado.
A mudança no Qualis é uma oportunidade. Se aproveitarmos mal, vamos criar um sistema igualmente distorcido com métricas diferentes. Se aproveitarmos bem, podemos construir critérios de avaliação mais honestos com a diversidade da ciência brasileira.
Para entender o contexto mais amplo de como a avaliação da CAPES funciona, veja o post sobre a avaliação quadrienal da CAPES e o que muda de verdade.
O debate ainda está aberto. E você deveria fazer parte dele.