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Ranking de Universidade: Quem Ganha Nessa Corrida?

Os rankings de universidades influenciam decisões, financiamentos e reputações. Mas o que eles medem de verdade, e quem se beneficia dessa corrida por posições?

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A corrida que ninguém pediu para entrar

Olha só essa cena: uma universidade pública brasileira, com décadas de formação de quadros técnicos para o país, começa a reestruturar seus critérios de contratação docente para valorizar publicações em inglês em periódicos internacionais de alto impacto. O motivo: melhorar o posicionamento nos rankings globais.

O que ela ganha? Algumas posições a mais numa tabela publicada por uma empresa britânica ou americana. O que ela perde? Às vezes, pesquisadores que fazem ciência extremamente relevante para o contexto nacional, mas que publicam em português, em periódicos locais, para um público que precisa daquele conhecimento.

Esse trade-off raramente é discutido abertamente. Mas ele existe.

O que os rankings medem de verdade

Os três rankings internacionais mais citados, QS World University Rankings, Times Higher Education (THE) e Academic Ranking of World Universities (também chamado de Shanghai Ranking), têm metodologias diferentes, mas compartilham algumas tendências.

Todos valorizam muito a produção científica medida por citações. Citações em inglês, em periódicos indexados em bases internacionais. Reputação entre pares, medida por surveys com pesquisadores e empregadores globais, também pesa muito. Proporção de professores internacionais, proporção de alunos internacionais, parcerias com a indústria.

O que nenhum deles mede com muita precisão: qualidade do ensino de graduação, relevância social da pesquisa para o contexto local, formação de lideranças regionais, impacto em políticas públicas nacionais.

Isso não é crítica torta. É simplesmente o que os indicadores conseguem capturar. Citações são mensuráveis. “Qualidade de ensino” é muito mais difícil de operacionalizar numa comparação global de centenas de instituições.

Quem define as regras do jogo

Aqui está um ponto que vale nomear claramente: os principais rankings internacionais são operados por empresas privadas de consulta educacional. QS é da empresa QS Quacquarelli Symonds, com sede em Londres. THE pertence ao Times Higher Education, também britânico. O Shanghai Ranking é coordenado pela Shanghai Jiao Tong University, mas tem história de influência do Estado chinês nas métricas.

Esses rankings foram criados com motivações que incluem, entre outras, orientar estudantes internacionais (especialmente asiáticos) na escolha de universidades no exterior. As universidades que se encaixam nos critérios são, predominantemente, as do Norte Global com décadas de vantagem em produção em inglês, captação de estudantes internacionais e parcerias industriais.

Não é conspiração. É simplesmente que as métricas refletem um modelo específico de universidade, desenvolvido em contextos específicos, e esse modelo não descreve bem o que uma universidade pública brasileira de qualidade faz ou deveria fazer.

A pressão que chega no dia a dia

O problema não está só nos rankings em si. O problema é que eles criaram uma pressão que desce pelos sistemas e chega até o pesquisador individual.

Universidades brigam por posição. Programas de pós-graduação são pressionados a publicar em periódicos de alto impacto, que quase sempre são internacionais. Pesquisadores jovens sabem que, para competir no mercado acadêmico, precisam acumular publicações nesses periódicos. Isso orienta escolhas de tema de pesquisa, de língua de publicação, de parceiros de colaboração.

Pesquisas que são relevantes para o Brasil, mas que dificilmente terão leitores internacionais, ficam em desvantagem nessa lógica. Pesquisadores que preferem escrever em português para um público brasileiro perdem pontos nas métricas que importam para promoção.

Faz sentido?

A avaliação CAPES e seus próprios problemas

O sistema brasileiro de avaliação de programas de pós-graduação, operado pela CAPES, tem alguns critérios mais adaptados ao contexto nacional. Mas também sofre de problemas similares.

A pressão por publicações em periódicos de alto estrato (A1, A2 no sistema Qualis) também orienta a produção para periódicos internacionais em inglês. A lógica de quantificação, de produtividade medida em número de artigos e citações, também está presente.

O que diferencia a avaliação CAPES é que ela inclui dimensões como formação de alunos, produção orientada para o sistema de ensino e para políticas públicas, e relevância regional. E, ao longo dos anos, houve esforços de revisão para tornar os critérios mais adequados à diversidade de áreas do conhecimento no país.

Mas a pressão de métricas que privilegiam a lógica dos rankings internacionais também penetrou o sistema CAPES, especialmente nas áreas com mais publicação internacional.

O que você pode fazer com isso

Saber que rankings existem e têm peso real não significa que você precisa organizar sua carreira em função deles.

Se você está escolhendo onde fazer pós-graduação, rankings são um dado, não o único dado. Qualidade do orientador para a sua área específica, projetos de pesquisa do grupo, financiamento disponível, e como o programa trata seus alunos importam muito mais para sua experiência concreta.

Se você é pesquisador e está tomando decisões sobre onde publicar, vale ter consciência das métricas que vão contar para promoção e financiamento na sua instituição, mas também das limitações desses critérios para avaliar a real relevância do seu trabalho.

E se você tem algum poder de decisão sobre políticas de avaliação, seja em banca, seja em comissão, seja em gestão, a reflexão sobre o que estamos de fato valorizando quando usamos essas métricas tem utilidade prática.

A corrida por ranking não vai desaparecer. Mas participar dela com consciência do que ela é, e do que ela deixa de fora, é diferente de correr sem questionar para onde você está indo.

O que os rankings não dizem sobre o ensino

Uma das omissões mais importantes dos rankings é a qualidade do ensino de graduação. Nenhum dos grandes rankings internacionais tem um indicador robusto para isso. A razão é simples: qualidade de ensino é difícil de medir de forma padronizada em escala global.

O que acontece na prática é que uma universidade pode ter pesquisa de ponta e ensino de graduação medíocre, ou vice-versa. Os rankings capturam um, não o outro. Estudantes que escolhem universidade baseados em ranking para a graduação podem estar tomando uma decisão menos informada do que pensam.

Pesquisas sobre satisfação de egressos, taxas de empregabilidade, ambiente de aprendizagem, acessibilidade dos professores, qualidade da orientação de TCC, são informações mais relevantes para quem está escolhendo onde fazer graduação do que posição em qualquer ranking global.

Rankings nacionais e a lógica da CAPES

No Brasil, a avaliação dos programas de pós-graduação pela CAPES funciona de forma diferente dos rankings internacionais. Os programas são avaliados por área de conhecimento, com critérios que variam entre áreas. A nota final vai de 1 a 7, com notas 6 e 7 reservadas para programas de “excelência internacional”.

Essa avaliação tem problemas próprios. A pressão por publicações em periódicos de alta classificação Qualis, a tendência a valorizar quantidade de produção sobre qualidade, e a aplicação de critérios similares para áreas com tradições acadêmicas muito diferentes têm sido criticadas por pesquisadores há anos. A CAPES tem feito revisões periódicas, mas as tensões estruturais persistem.

Uma diferença importante em relação aos rankings internacionais: a avaliação CAPES inclui dimensões como formação de alunos (quantos mestres e doutores foram formados, em que prazo) e inserção social da pesquisa, que os rankings globais ignoram completamente.

A universidade que você precisa, não a que tem mais troféus

Para estudantes entrando na pós-graduação, a pergunta mais útil não é “qual universidade está melhor no ranking?”. É “qual programa tem o orientador mais adequado para o que eu quero pesquisar, com estrutura de financiamento que me permita trabalhar, num ambiente que respeita seus alunos?”

Para pesquisadores decidindo onde publicar, a pergunta não é “qual periódico tem mais fator de impacto?”. É “qual periódico tem o público que precisa ler esse trabalho, com revisores que entendem o campo, e com uma política de acesso que permite que o conhecimento chegue a quem pode usá-lo?”

Essas perguntas são mais difíceis de responder do que consultar uma lista. Mas são as perguntas certas.

Rankings têm utilidade em contextos específicos. Como uma fonte de informação entre várias, como um indicador aproximado de reputação institucional, como ponto de partida para pesquisa mais aprofundada. O problema é quando se tornam o critério principal ou único, distorcendo decisões que deveriam ser guiadas por outras prioridades.

Perguntas frequentes

Os rankings universitários são confiáveis para escolher onde estudar?
Rankings medem o que conseguem medir, que é principalmente produção científica e reputação entre pares. Eles não medem qualidade de ensino, ambiente de aprendizagem, relação professor-aluno, ou relevância para o mercado local. São um dado entre vários, não um veredicto definitivo.
Por que universidades brasileiras têm posições baixas nos rankings internacionais?
Os principais rankings internacionais (QS, THE, Shanghai) valorizam muito publicações em inglês, internacionalização e parcerias com setor privado. Universidades brasileiras publicam muito em português, têm menos internacionalização, e operam em contexto diferente. Isso não significa que são piores, significa que os critérios dos rankings não foram feitos para capturar esse tipo de excelência.
O ranking da CAPES é diferente dos rankings internacionais?
Sim. A avaliação CAPES dos programas de pós-graduação tem critérios específicos para o contexto brasileiro, incluindo formação de alunos, produção orientada para o país, e impacto regional. Ainda tem limitações e pressões similares, mas foi desenhada para o sistema brasileiro, não para servir a comparações globais.
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