Relato de Experiência em Enfermagem: Como Escrever
Como escrever relato de experiência na enfermagem para publicação científica: estrutura, diferenciais em relação ao estudo de caso e como valorizar a prática clínica.
Relato de experiência: o texto que transforma prática em ciência
Vamos lá. O relato de experiência é um tipo de publicação que muita gente na enfermagem subestima. Parece menos robusto do que um ensaio clínico, menos complexo do que uma revisão sistemática. Mas quando bem escrito, ele cumpre uma função que nenhum desses outros formatos cumpre: documenta o saber prático de quem está na linha de frente, com análise crítica e potencial de transformar práticas.
E esse saber prático tem valor científico. A questão é saber como colocá-lo em formato que os periódicos reconheçam.
O que é e o que não é um relato de experiência
O relato de experiência na enfermagem descreve e analisa uma situação vivida em contexto profissional: uma experiência de implementação de protocolo, uma vivência em unidade específica, um processo de ensino-aprendizagem, uma intervenção de enfermagem com resultados observáveis.
O que diferencia um relato de experiência de um simples depoimento é a análise crítica fundamentada na literatura. Você não está apenas contando o que aconteceu. Você está interpretando o que aconteceu à luz do que a ciência de enfermagem diz sobre aquele fenômeno. E está extraindo lições que possam ser aplicadas por outros profissionais em contextos similares.
O relato de experiência não é o mesmo que estudo de caso clínico. No estudo de caso, o protagonista é o paciente ou a família: descreve-se o caso, as intervenções, os desfechos. No relato de experiência, o protagonista é a experiência do profissional ou da equipe. A distinção importa para fins éticos e para a escolha do periódico certo.
Estrutura do relato de experiência para publicação
A estrutura mais aceita pelos periódicos de enfermagem para o relato de experiência é:
A introdução apresenta o contexto da experiência e a justificativa de por que ela merece ser relatada. Qual é o problema prático que motivou a situação? Qual a relevância para a área? Aqui entram os dados epidemiológicos ou contextuais que ancoram o leitor.
O desenvolvimento descreve a experiência em si: o cenário, os atores envolvidos, o período, as ações realizadas. A narrativa precisa ser clara e objetiva, sem se tornar apenas uma sequência cronológica de eventos. O que você vai intercalando com a descrição é a análise: o que cada elemento dessa experiência revela à luz da literatura.
As lições aprendidas ou resultados percebidos constituem a seção que muitos escritores iniciantes esquecem ou minimizam, mas que é o coração do relato. O que essa experiência ensinou? O que funcionou, o que não funcionou, o que faria de diferente? Esses insights precisam ser fundamentados: não basta dizer que funcionou, é preciso conectar com o referencial teórico que explica por que funcionou.
A conclusão retoma a contribuição do relato para a área e aponta implicações para a prática ou para futuras pesquisas.
A fundamentação teórica que sustenta o relato
Um erro muito comum no relato de experiência é tratar a revisão de literatura como enfeite. Você cita dois ou três artigos na introdução e depois a narrativa da experiência fica solta, sem âncoras teóricas.
A fundamentação precisa aparecer no corpo do texto, não apenas na introdução. Quando você descreve uma intervenção específica, você conecta com o que a literatura diz sobre aquela intervenção. Quando você analisa uma dificuldade encontrada, você busca na teoria da área a explicação para aquela dificuldade. Esse diálogo constante entre a experiência concreta e o conhecimento científico acumulado é o que transforma o relato em produção científica.
Isso também significa que a revisão de literatura precisa ser feita antes de escrever, não depois. Você precisa saber o que os outros já disseram sobre aquele contexto para poder situar a sua contribuição de forma precisa.
Linguagem e tom do relato de experiência
O relato de experiência permite uma escrita um pouco mais narrativa do que o artigo científico tradicional. A experiência tem um fio cronológico natural, e usar esse fio ajuda o leitor a se situar.
Mas “mais narrativo” não significa informal. A linguagem técnica da enfermagem precisa estar presente: termos corretos para procedimentos, denominações adequadas para cargos e unidades, uso preciso dos conceitos teóricos que você está mobilizando.
Uma prática que ajuda: escrever uma versão mais narrativa e livre primeiro, depois revisar para garantir que cada parágrafo está ancorado em algum fundamento teórico ou dado concreto da experiência. O Método V.O.E. chama isso de passar pela fase de Execução com clareza, sem se prender à perfeição no primeiro rascunho.
Escolhendo o periódico para submeter
O relato de experiência não é aceito por todos os periódicos de enfermagem. Antes de escrever, verifique nos objetivos e escopo do periódico alvo se esse tipo de publicação está entre os aceitos.
Periódicos como a Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn), a REME Revista Mineira de Enfermagem e o Cogitare Enfermagem têm histórico de publicar relatos de experiência quando bem fundamentados. Periódicos mais voltados para pesquisa primária ou revisões sistemáticas podem não aceitar esse formato.
Leia as instruções aos autores com atenção: tamanho permitido, número de referências, formatação do texto, exigência ou não de aprovação pelo CEP. Cada periódico tem suas especificidades.
O relato que fica na gaveta e o que vai para a literatura
A diferença entre um relato de experiência que fica na gaveta e um que vai para a literatura científica é pequena e grande ao mesmo tempo. Pequena porque a experiência é a mesma. Grande porque a análise crítica, a fundamentação teórica e a clareza de contribuição fazem todo o trabalho de transformação.
Se você tem uma experiência profissional que te ensinou algo que você acha que outros precisam saber, esse material existe. O que a escrita científica faz é organizá-lo de uma forma que outros possam acessar, questionar, replicar e desenvolver.
Para recursos adicionais sobre escrita científica em saúde, veja /recursos.
Aspectos éticos que você não pode ignorar
Mesmo que o relato de experiência frequentemente dispense aprovação formal do CEP, existem princípios éticos que guiam a escrita.
Preservar o anonimato de pacientes, familiares e colegas de equipe que aparecem no relato não é opcional: é um imperativo ético e legal. Se a experiência envolve situações que identificam pessoas, você precisa ou obter consentimento ou descrever os casos de forma que a identificação seja impossível.
Da mesma forma, evite descrever conflitos ou falhas institucionais de forma que identifique gestores, colegas ou unidades específicas sem necessidade. O objetivo do relato é a aprendizagem, não a exposição.
Se houver qualquer dúvida sobre a necessidade de submissão ao CEP, consulte antes de escrever. É muito mais fácil adequar o projeto ao CEP no início do que tentar publicar um trabalho que levanta questões éticas depois da escrita concluída.
Quando o relato de experiência vira pesquisa maior
Um ponto que poucos pensam: o relato de experiência pode ser o ponto de partida para uma pesquisa mais robusta. A experiência que você documenta pode levantar hipóteses que valem uma investigação sistemática, pode identificar um problema que merece um estudo de caso controlado, pode revelar uma lacuna que uma revisão de literatura pode preencher.
Muitas pesquisas em enfermagem nasceram de um profissional que parou para documentar o que estava observando na prática e percebeu que havia algo ali que a teoria ainda não explicava bem. O relato de experiência, quando bem escrito, é o registro desse olhar clínico crítico.
Faz sentido? A prática clínica que você vive todos os dias tem valor científico. Escrever sobre ela não diminui o rigor: aumenta o alcance.