ResearchGate e Academia.edu: Como Usar Para Visibilidade
Entenda as diferenças entre ResearchGate e Academia.edu e aprenda como usar essas plataformas para aumentar a visibilidade da sua pesquisa e ampliar sua rede acadêmica.
Duas plataformas, uma lógica, propósitos distintos
Vamos lá. ResearchGate e Academia.edu existem há mais de uma década e ainda confundem muita gente sobre o que são e para que servem. Não são iguais. Não são intercambiáveis. E nenhuma das duas é obrigatória, mas as duas têm usos legítimos dependendo do seu campo e dos seus objetivos.
A lógica básica de ambas é simples: criar um lugar onde pesquisadores de todo o mundo possam encontrar seu trabalho, lê-lo, e eventualmente entrar em contato com você. É visibilidade acadêmica numa camada diferente do Lattes ou do ORCID.
O Lattes registra o que você produziu. O ORCID funciona como identificador único internacional. ResearchGate e Academia.edu são onde alguém que nunca te ouviu falar pode tropeçar no seu trabalho pesquisando um tema, gostar do que leu, e te escrever um e-mail.
Faz sentido? Vamos separar as duas plataformas para entender o que cada uma oferece.
O que é o ResearchGate e como funciona
O ResearchGate foi criado em 2008 por dois pesquisadores (um médico e um cientista da computação) que sentiram falta de uma rede social focada em ciência. Hoje tem dezenas de milhões de usuários e é especialmente forte em ciências exatas, naturais, engenharias, medicina e saúde.
A plataforma funciona um pouco como uma mistura de LinkedIn com repositório de artigos. Você cria um perfil, lista suas publicações, e pode fazer upload dos textos para que outras pessoas leiam diretamente lá. O ResearchGate rastreia automaticamente suas publicações a partir de bases como o PubMed, Scopus e Google Scholar, então às vezes você já tem uma página com suas publicações sem ter criado uma conta.
Uma das coisas que o ResearchGate faz de diferente é calcular o que chama de “ResearchGate Score”, uma métrica proprietária que combina número de publicações, citações, leituras e interações. Você pode ignorar esse número com tranquilidade, porque ele não tem correspondência direta com métricas acadêmicas reconhecidas. O que tem valor real na plataforma são as leituras e o contato direto com outros pesquisadores.
O que funciona bem no ResearchGate:
O sistema de perguntas e respostas. Qualquer usuário pode fazer perguntas abertas sobre um tema de pesquisa, e especialistas da área respondem. É uma forma de aparecer para uma audiência que está buscando exatamente o que você sabe.
O acompanhamento de quem leu seu trabalho. Não é perfeito, mas dá uma ideia de onde seu artigo está sendo acessado geograficamente e quantas vezes foi baixado. Isso tem valor para entender o alcance real da sua pesquisa.
As notificações de citação. O ResearchGate te avisa quando alguém cita seus trabalhos, antes mesmo do Google Scholar às vezes.
O contato direto com outros pesquisadores. Você pode seguir o trabalho de colegas, comentar papers, e ser contatada por pessoas que leram sua pesquisa. Isso gera colaborações reais.
O que é o Academia.edu e em que é diferente
O Academia.edu surgiu um pouco antes do ResearchGate, em 2008 também, mas tem uma filosofia bem diferente. Apesar do nome, não é uma instituição acadêmica. É uma empresa privada com investimento de capital de risco, e isso tem implicações.
A plataforma tem interface mais próxima de uma rede social convencional. É mais popular em humanidades, ciências sociais, educação e áreas que têm tradição de circulação de textos em formato de paper não publicado ou ensaio.
O ponto mais controverso do Academia.edu é o modelo freemium. A versão gratuita permite criar perfil e postar trabalhos, mas esconde quem visualizou seu perfil, quem baixou seus papers, e algumas métricas de análise. Para acessar esses dados, é preciso assinar a versão paga. Muitos pesquisadores acham isso um problema de princípio, já que coloca dados sobre o alcance da pesquisa científica atrás de um paywall.
O que funciona bem no Academia.edu:
O alcance em áreas humanísticas. Se você pesquisa literatura, filosofia, educação ou ciências sociais, a Academia.edu tem uma presença forte nesses campos.
A descoberta de textos de difícil acesso. Muitos pesquisadores postam lá textos de capítulos de livros, anais de congressos e papers de conferências que não estão em repositórios abertos. Para quem está mapeando literatura, é uma fonte útil.
A simplicidade do perfil. Para quem quer apenas uma presença online mínima fora do Lattes, o Academia.edu é mais simples de configurar.
A questão do copyright: o que você pode e não pode postar
Esse é o ponto onde mais pesquisadores erram, por desconhecimento.
Quando você publica um artigo numa revista científica, especialmente uma com acesso fechado, você frequentemente cede os direitos sobre aquele PDF formatado para a editora. Postar esse PDF no ResearchGate ou no Academia.edu sem verificar a política da editora é uma infração de copyright.
A boa notícia é que a maioria das editoras permite o auto-arquivamento de alguma versão do trabalho:
- Preprint: a versão que você enviou para a revista, antes de qualquer revisão. Geralmente liberada para postagem em qualquer lugar.
- Postprint / Author Accepted Manuscript: a versão final do conteúdo após a revisão pelos pares, mas sem a formatação da editora. Muitas editoras permitem, às vezes com embargo de seis a doze meses.
- PDF final da editora: geralmente proibido para postar livremente, a menos que seja uma revista open access.
O site Sherpa Romeo (sherpa.ac.uk/romeo) tem um banco de dados das políticas de auto-arquivamento de milhares de editoras e revistas. Antes de postar qualquer coisa nessas plataformas, vale consultar lá o nome da revista onde publicou.
ResearchGate tem histórico de conflitos com editoras exatamente por causa desse ponto. Já houve casos de artigos sendo removidos a pedido de editoras. Isso não é culpa da plataforma, mas é um risco real para o pesquisador que posta sem verificar.
Como usar o ResearchGate de forma inteligente
Se você vai investir tempo numa dessas plataformas, o ResearchGate costuma ter retorno mais claro para pesquisadores fora das humanidades.
Monte o perfil com cuidado. Foto, afiliação atual, área de pesquisa, e uma descrição curta do que você pesquisa. Profiles incompletos aparecem menos e passam menos credibilidade.
Adicione suas publicações e verifique o copyright antes de fazer upload. O ResearchGate importa automaticamente da maioria das bases, mas você precisa revisar os registros. Informações erradas no perfil público são um problema.
Poste preprints quando possível. Artigos que ainda estão em revisão ou que foram aceitos mas não publicados podem ser postados como preprints. Isso aumenta muito a visibilidade, porque o paper fica disponível antes de entrar no paywall da revista.
Use a seção de perguntas com inteligência. Quando aparece uma pergunta na sua área em que você tem algo concreto a contribuir, responda. Não precisa ser longo. Uma resposta sólida de dois parágrafos é melhor do que uma resposta genérica de dez.
Acompanhe quem está lendo. As notificações de leitura e citação são informação útil. Se um artigo seu está sendo muito lido de repente, pode ser que alguém citou ele em algo de circulação ampla. Vale investigar.
ResearchGate, Academia.edu, ou os dois?
A resposta depende da sua área e dos seus objetivos.
Se você está em ciências exatas, saúde, engenharia ou áreas com muita produção em revistas indexadas: ResearchGate faz mais sentido como plataforma principal.
Se você está em humanidades ou ciências sociais, com produção em livros, capítulos e conferências: Academia.edu tem mais presença nessas comunidades.
Se você tem energia e quer maximizar a presença: os dois, mas sem tentar manter tudo igual nos dois lugares. Um pode ser mais ativo, o outro mais de presença básica.
O que não vale a pena: gastar muito tempo gerenciando métricas dessas plataformas como se fossem o centro da sua estratégia de disseminação. Elas são ferramentas. O que importa é que seu trabalho seja encontrável e que você esteja acessível para colaborações.
Essas plataformas substituem o Google Scholar?
Não, e convém entender por quê.
O Google Scholar é o mecanismo de busca. Ele indexa o que está publicado em revistas, repositórios, sites de universidades e plataformas como o próprio ResearchGate. Quando alguém pesquisa seu nome ou seu tema no Google Scholar, está buscando em toda essa rede.
O ResearchGate e o Academia.edu são perfis dentro dessa rede. Eles aparecem no Google Scholar porque são indexados por ele. Mas eles não substituem a necessidade de publicar em repositórios institucionais, de ter o ORCID configurado, de garantir que suas publicações estão registradas corretamente no Lattes.
A presença online de uma pesquisadora é feita de várias camadas. O ORCID é o identificador único. O Lattes é o registro nacional. O Google Scholar Profile é a vitrine de citações. O ResearchGate é a rede social acadêmica. Cada um tem uma função.
O que você precisa depende do que está tentando fazer. Aumentar citações? Fazer colaborações internacionais? Ser encontrada por pesquisadores de outras línguas? As ferramentas certas dependem desses objetivos.
O que realmente importa no final
Nenhuma plataforma substitui fazer pesquisa boa e publicar em lugares que as pessoas da sua área leem. A visibilidade online é uma amplificação do que já existe. Não cria reputação do nada.
Mas se a pesquisa já existe e está boa, garantir que ela seja encontrável é um trabalho que vale a pena. Não como obsessão de métricas, mas como parte de levar o trabalho a sério.
Ter um perfil atualizado no ResearchGate ou no Academia.edu, com as publicações corretas e uma descrição clara do que você pesquisa, é uma das formas mais simples de aumentar as chances de que o trabalho chegue a quem deveria chegar.