ResearchGate e Academia.edu: Valem a Pena?
ResearchGate e Academia.edu prometem visibilidade para pesquisadores. Mas o que essas plataformas realmente entregam, e onde elas podem te prejudicar?
Dois perfis que a maioria dos pesquisadores tem sem saber para quê
Vamos lá. Se você está na academia há mais de dois ou três anos, provavelmente tem um perfil no ResearchGate, no Academia.edu, ou nos dois. Talvez alguém tenha criado um para você sem você pedir. Talvez você mesmo tenha criado numa tarde achando que ia ajudar a divulgar sua pesquisa, e depois nunca mais entrou.
Isso é muito comum. E não é necessariamente um problema. Mas significa que a maioria dos pesquisadores usa essas plataformas de forma passiva, sem entender direito o que elas fazem e não fazem, e sem uma estratégia clara sobre o que esperar delas.
Esse post é uma reflexão honesta sobre essas duas plataformas: o que elas entregam, onde elas ficam aquém das promessas, e o que você precisa saber antes de sair postando tudo que produziu.
O que o ResearchGate é e o que não é
O ResearchGate é uma rede social para pesquisadores criada em 2008, com sede em Berlim. Ela permite que você crie um perfil, liste suas publicações, faça upload de textos, siga outros pesquisadores, faça e responda perguntas, e acompanhe métricas de visualizações e downloads dos seus trabalhos.
O que ela não é: não é uma base de dados indexada no sentido que importa para avaliações científicas formais. O “RG Score”, a métrica proprietária que a plataforma usa para avaliar impacto, não é reconhecida pelas principais agências de avaliação científica e não tem equivalência com o h-index ou fator de impacto de periódicos. Isso não significa que a plataforma seja inútil, mas significa que você não vai impressionar um comitê de avaliação de bolsas com “tenho 50.000 leituras no ResearchGate”.
O que ela faz bem: gera visibilidade para trabalhos que de outra forma ficariam atrás de paywalls. Se alguém pesquisa no Google um tema que você estudou, um perfil completo no ResearchGate pode aparecer nos resultados. Para pesquisadores de países com acesso limitado a periódicos, poder baixar seu pré-print gratuitamente tem valor real.
O que o Academia.edu é e o que não é
O Academia.edu é uma plataforma comercial com modelo freemium. Isso significa que funciona num modelo parcialmente gratuito mas com recursos limitados para quem não paga. A versão paga oferece funcionalidades como análise avançada de quem está lendo seus trabalhos, acesso a recomendações e alertas de citações.
Há um debate legítimo dentro da academia sobre o modelo do Academia.edu. Por um lado, ele usa o nome “academia” e o prestígio da pesquisa científica para gerar valor comercial. Por outro, serve como ponto de acesso a textos que de outra forma seriam inacessíveis para muita gente.
O Academia.edu tem mais penetração nas humanidades, ciências sociais e artes. Se você atua nessas áreas e quer que seu trabalho seja encontrado por pesquisadores que navegam nessa plataforma, um perfil ativo faz sentido.
A armadilha dos direitos autorais
Aqui está o ponto que mais pesquisadores ignoram e que pode causar problemas reais: ao publicar um artigo em um periódico, você geralmente cede direitos autorais à editora. Dependendo do contrato que você assinou, você pode ou não ter o direito de disponibilizar o texto em plataformas como ResearchGate e Academia.edu.
A versão final do artigo, aquela com a formatação e o DOI da revista, geralmente pertence à editora. Subir esse PDF em qualquer plataforma sem autorização pode ser uma infração de direitos autorais. E editoras como Elsevier, Springer e Wiley têm enviado notificações de retirada de conteúdo para plataformas quando identificam violações.
O que você pode fazer legalmente, na maioria dos casos: disponibilizar o pré-print (versão anterior à revisão pelos pares), ou o pós-print do autor (versão final aceita, antes da diagramação). A política específica de cada revista pode ser consultada no SHERPA RoMEO, um banco de dados que compila as políticas de autoarquivamento das principais editoras.
Antes de fazer upload de qualquer texto completo, vale dez minutos verificando se você tem permissão. Não porque editoras são moralmente corretas ao restringir o acesso, mas porque você não precisa colocar seu nome em uma notificação de violação por um upload feito sem atenção.
O que essas plataformas fazem pela sua visibilidade de fato
Com todas as ressalvas, ResearchGate e Academia.edu têm valor real como ferramentas de visibilidade, especialmente para pesquisadores que estão construindo presença na internet.
O Google Academic, que é a principal ferramenta de busca de artigos científicos, indexa conteúdo dessas plataformas. Quando alguém pesquisa um tema específico, perfis completos e textos disponíveis nessas redes podem aparecer. Para temas de nicho, esse efeito pode ser bastante significativo.
Há também o efeito de serendipidade: pesquisadores em outros países que nunca teriam encontrado seu trabalho numa base de dados podem descobrí-lo via ResearchGate. Parcerias de pesquisa e colaborações internacionais começaram assim. Não é a principal forma de construir redes, mas acontece.
O que essas plataformas não fazem: não substituem o Google Scholar para monitoramento de citações, não substituem o Lattes para apresentação curricular formal, e não substituem publicações em periódicos reconhecidos para fins de avaliação.
Quanto tempo vale a pena investir
Minha visão: essas plataformas não merecem muito do seu tempo. Criar um perfil, listar suas publicações, e subir os textos que você tem permissão de disponibilizar. Isso leva algumas horas. Depois, você pode atualizá-las quando publica algo novo.
O que não vale a pena: obsessão com as métricas que elas exibem. O ResearchGate vai te mostrar quantas vezes seu perfil foi visualizado. Isso pode ser interessante uma vez ou outra. Mas não é um indicador de impacto científico, e ficar monitorando esse número é uma forma de usar seu tempo de pesquisa de forma pouco produtiva.
O que também não vale a pena: usar essas plataformas como repositório principal da sua produção. O lugar oficial da sua produção é o seu Lattes, os repositórios institucionais da sua universidade, e eventualmente o ORCID para identificação persistente como pesquisador.
Alternativas que podem fazer mais sentido
Se o objetivo é visibilidade e impacto, existem algumas alternativas que funcionam melhor para finalidades específicas.
Para preprints, especialmente em ciências exatas e biológicas, o arXiv é o padrão. Para ciências sociais, o SocArXiv. Para saúde e biológicas, o medRxiv e o bioRxiv. Esses repositórios têm mais legitimidade científica do que o upload simples numa rede social.
Para identificação persistente como pesquisador, o ORCID é o padrão internacional. Ter um número ORCID conectado às suas publicações facilita enormemente a deduplicitação do seu histórico e é reconhecido pelas principais agências de fomento.
Para monitoramento de citações, o Google Scholar é muito mais completo e confiável do que qualquer métrica do ResearchGate.
Para presença online mais ampla, um site pessoal ou o perfil no Google Scholar são mais persistentes e controláveis do que um perfil em plataformas que podem mudar de modelo de negócio ou desaparecer.
O que eu faria no seu lugar
Se eu estivesse construindo visibilidade como pesquisadora hoje, criaria um perfil básico no ResearchGate, subiria apenas os textos que tenho certeza de que posso disponibilizar, e não me preocuparia muito mais com isso. A energia que sobra vai para o que realmente constrói reputação científica: publicar em bons periódicos, apresentar em bons eventos, colaborar com pesquisadores que te respeitam.
As plataformas são vitrines secundárias. Úteis, mas secundárias. E vitrines não substituem o produto.
Se você ainda não tem esses perfis, nada de urgente. Mas se já tem, que estejam pelo menos com informação básica correta e atualizada. É o mínimo para que elas façam alguma coisa por você.