Responder parecerista: como escrever a carta-resposta
Como responder aos comentários do parecerista após o peer review, com estrutura, tom e os erros mais comuns na carta de resposta aos revisores.
O email que todo pesquisador espera e teme ao mesmo tempo
Você submeteu o artigo há três meses. O email chegou: “Decisão da editoria: Revisão Maior Solicitada.” Junto vêm quatro páginas de comentários de dois revisores. Você fica olhando para a tela sem saber por onde começar.
Essa é uma situação muito comum, especialmente para pesquisadoras que estão submetendo pela primeira vez. E o problema não é só o que fazer com o manuscrito. É saber como escrever a resposta.
A carta-resposta ao parecerista é um documento formal com convenções próprias. Saber escrever bem essa carta aumenta significativamente as chances de aceitação na rodada seguinte.
O que é e para que serve a carta-resposta
A carta-resposta, também chamada de resposta aos revisores ou memo de revisão, é o documento que você envia junto com a versão revisada do manuscrito. Ela tem duas funções simultâneas:
Demonstrar que você levou os comentários a sério. A editoria quer saber que você leu cada ponto, refletiu e agiu. Carta genérica do tipo “atendemos todas as sugestões” sem detalhamento não cumpre essa função.
Documentar exatamente o que mudou. O editor precisa verificar que as revisões foram feitas. A carta-resposta é o mapa que guia essa verificação: para cada comentário, você indica onde no manuscrito a mudança foi implementada.
Estrutura da carta-resposta ponto a ponto
O formato mais aceito é o chamado “ponto a ponto”: cada comentário do revisor é reproduzido na íntegra, seguido da sua resposta. A estrutura fica assim:
Cabeçalho: identificação do manuscrito, data, nome dos autores.
Agradecimento geral: parágrafo curto agradecendo aos editores e revisores pelo tempo dedicado ao processo. Não precisa ser longo. Uma ou duas frases formais cumprem bem.
Resposta ao Revisor 1:
Comentário 1.1: [texto do comentário do revisor]
Resposta: [sua resposta]
Mudança no manuscrito: [indicação da página, seção ou linha onde a mudança foi feita]
Resposta ao Revisor 2: mesma estrutura.
Resposta ao editor: se o editor fez comentários próprios (além dos dos revisores), eles entram em seção separada.
O tom certo: respeitoso mesmo em discordância
O tom da carta-resposta precisa ser profissional e respeitoso em todos os comentários, incluindo aqueles com os quais você discorda.
Revistas científicas têm bases de dados de revisores. O campo é pequeno e as pessoas se conhecem. Responder de forma hostil ou defensiva a um revisor que talvez seja colega de área não é uma estratégia inteligente.
Mais importante: o editor lê a carta. Uma resposta agressiva a um comentário razoável sinaliza que você tem dificuldade de receber crítica, o que vai além da discussão técnica.
Para comentários que você implementou: “Agradecemos o comentário. Revisamos o trecho conforme sugerido. A nova versão pode ser encontrada na página X, linhas Y-Z.”
Para comentários que você discorda: “Agradecemos o comentário. Mantivemos a abordagem original pelos seguintes motivos: [argumento]. Para deixar isso mais claro no texto, adicionamos o seguinte trecho: [inserção].”
Como responder ao revisor que pediu algo impossível ou equivocado
Às vezes o revisor pede uma análise que está fora do escopo do estudo, sugere uma metodologia incompatível com o design da pesquisa, ou fez uma leitura equivocada do que você escreveu.
Nesses casos, o caminho não é ceder. É explicar com clareza e respeito por que a sugestão não foi implementada.
Se o revisor pediu análise fora do escopo: “O estudo tem um design [tipo de design] que não permite as análises sugeridas. Para não desviar do objetivo original, mantivemos o escopo definido. Adicionamos um parágrafo na seção de limitações reconhecendo essa questão para trabalhos futuros.”
Se o revisor interpretou errado: “Reconhecemos que a redação original gerou ambiguidade. Para deixar mais claro o que o estudo aborda, revisamos o trecho [indicar onde] para [nova versão].” Não escreva “o revisor não entendeu”. Reescreva o trecho para que a interpretação correta seja a mais natural.
O erro que compromete a carta antes do início: não numerar os comentários
Se os comentários do revisor não vieram numerados, você precisa numerá-los antes de responder. Carta-resposta sem numeração clara obriga o editor a fazer correspondência manual entre seu texto e os comentários originais. Isso atrasa o processo e passa impressão de descuido.
Reproduza o comentário do revisor em itálico ou em destaque visual diferente do seu texto. O contraste visual facilita a leitura e deixa claro o que é do revisor e o que é sua resposta.
Indicar a linha ou página no manuscrito revisado
Para cada comentário que gerou mudança no manuscrito, indique onde a mudança foi feita. O padrão mais comum é indicar página e linha na versão com controle de alterações: “A mudança pode ser encontrada na página 8, linhas 134-138 da versão com rastreamento de alterações.”
Isso exige que você envie o manuscrito com rastreamento de alterações ativo (Track Changes no Word ou equivalente). Muitas revistas exigem isso explicitamente no processo de revisão. Se a instrução para autores não especifica, envie de qualquer forma: facilita o trabalho do editor e demonstra profissionalismo.
Prazo para entrega da revisão
Após a decisão de “revisão maior” ou “revisão menor”, a revista normalmente indica um prazo para entrega. Esse prazo deve ser levado a sério.
Se você precisar de mais tempo, entre em contato com a editoria antes do prazo expirar, explique brevemente a razão e solicite a extensão. As editoras costumam ser razoáveis com pedidos feitos com antecedência. O que não é bem recebido é simplesmente não entregar sem comunicação.
Quando a revisão maior se transforma em aceitação
A resposta bem feita à revisão maior frequentemente resulta em aceitação na rodada seguinte, ou em uma revisão menor menos exigente. Isso porque o editor vê que você tratou o processo com seriedade.
Pesquisadoras que ficam travadas na etapa de resposta ao parecerista muitas vezes estão confundindo a revisão com uma derrota. A revisão é parte normal do processo de publicação. Poucos artigos são aceitos sem revisão. A capacidade de revisar e responder com qualidade é uma habilidade que se desenvolve, e ela tem peso real na sua carreira acadêmica.
Revisão menor versus revisão maior: o que muda na resposta
Revisão menor e revisão maior seguem o mesmo formato de carta-resposta, mas com expectativas diferentes sobre a extensão das mudanças.
Na revisão menor, os revisores já aprovaram o mérito do trabalho e pedem ajustes pontuais: esclarecer uma passagem ambígua, adicionar uma referência, revisar a apresentação de um resultado. A carta-resposta é mais curta porque as mudanças são mais localizadas.
Na revisão maior, os comentários podem envolver questões estruturais: adicionar análise, revisar a metodologia, ampliar a discussão, reestruturar seções inteiras. A carta-resposta é mais extensa e precisa documentar mudanças maiores com mais detalhe.
Em ambos os casos, a regra é a mesma: endereçar cada comentário individualmente, indicar o que mudou e onde, e justificar o que não mudou.
Como lidar com dois revisores que se contradizem
Acontece: o Revisor 1 pede que você aprofunde a discussão dos resultados, e o Revisor 2 acha que a discussão já está extensa demais. Ou um pede mais referências em uma área e o outro acha que você está citando fontes desnecessárias.
Nesse caso, cabe a você tomar uma decisão fundamentada e explicá-la na carta. Você pode fazer isso de forma direta: “Os Revisores 1 e 2 fizeram sugestões opostas sobre [ponto]. Após avaliar os dois comentários, optamos por [decisão] pelos seguintes motivos: [razão].”
Não é possível satisfazer dois revisores em contradição sem tomar uma posição. O editor reconhece isso. O que ele quer ver é que você refletiu sobre as duas perspectivas e tomou uma decisão com argumento.
Quando a resposta chega após uma rejeição
Se o artigo foi rejeitado e você quer submeter a outra revista, a carta-resposta anterior não precisa ser reutilizada. Cada submissão começa do zero para a nova editoria.
Mas o conteúdo dos comentários que você recebeu pode ser muito útil para melhorar o manuscrito antes da próxima submissão. Revisores de uma revista frequentemente apontam pontos que revisores de outras revistas também notariam. Tomar os comentários a sério mesmo após a rejeição, revisar o artigo e submeter uma versão melhorada tende a produzir resultados melhores do que simplesmente mudar de alvo.
Perguntas frequentes
O que é uma carta-resposta ao parecerista?
É obrigatório responder todos os comentários do parecerista?
Como responder quando não concorda com o parecerista?
Leia também
Receba estratégias de escrita acadêmica direto no seu feed
Siga a Dra. Nathalia no YouTube e Instagram para conteúdo gratuito sobre o Método V.O.E.