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A Culpa Não É Só Sua: Responsabilidade Institucional

Quando a pós-graduação machuca, a resposta costuma ser 'você precisa ser mais resiliente'. Mas e a responsabilidade das instituições? Vamos falar disso.

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Existe uma narrativa conveniente que precisa ser questionada

Olha só: toda vez que um estudante de pós-graduação chega num estado de colapso, a resposta mais frequente do sistema é uma variação de “você precisa de mais resiliência”. De habilidades de autocuidado. De gestão emocional. De limites mais saudáveis.

Raramente a pergunta é: o que essa instituição fez ou deixou de fazer que contribuiu para que esse estudante chegasse nesse estado?

Não estou dizendo que responsabilidade individual não existe. Existe. As escolhas que cada um faz durante a pós importam. Mas a narrativa que deposita toda a responsabilidade no estudante e nenhuma na estrutura é, além de injusta, funcionalmente útil para quem não quer mudar o sistema.

É sobre essa responsabilidade institucional que quero conversar.

O que é responsabilidade institucional, concretamente

Quando falo em responsabilidade institucional, não estou falando em abstrato. Estou falando em coisas concretas que as universidades e os programas de pós-graduação fazem ou deixam de fazer.

Uma universidade tem responsabilidade de oferecer condições de trabalho que não configurem exploração. Isso inclui bolsas com valores que permitam viver com estabilidade mínima, infraestrutura de pesquisa adequada e carga de tarefas compatível com o que um pós-graduando em formação pode razoavelmente sustentar.

Uma universidade tem responsabilidade de criar mecanismos de proteção nas relações de orientação. Isso não significa que orientador e orientando não podem ter conflitos, porque podem. Significa que quando o conflito envolve abuso de poder, assédio, exigências ilegítimas ou negligência, o estudante tem para onde ir além de “aturar ou abandonar”.

Uma universidade tem responsabilidade de oferecer serviços de saúde mental que funcionem de verdade, não apenas existam no papel. E tem responsabilidade de criar uma cultura que não envergonhe quem busca esses serviços.

Nada disso é demanda excessiva. É condição básica de um ambiente de formação digno.

O silêncio conveniente dos colegiados

Existe uma dinâmica nos programas de pós-graduação que raramente é discutida abertamente: o silêncio protegido por lealdade corporativa.

Quando um estudante tem problemas com seu orientador, geralmente o primeiro instinto é buscar alguém no colegiado do programa. Outro professor, o coordenador, alguém. O problema é que esse colegiado é composto de pessoas que trabalham juntas, que têm relações de décadas, que precisam conviver independentemente de qualquer resolução de conflito.

O resultado é que orientadores problemáticos são frequentemente protegidos. Não por malícia necessariamente, mas por um código implícito que prioriza a coesão do grupo sobre a proteção do estudante.

“Você sabe como o professor X é.” “É melhor não criar confusão.” “Você termina logo, e aí tudo bem.”

Isso não é um problema de pessoas ruins em lugares ruins. É um problema estrutural que se reproduz porque não há mecanismos externos com dentes suficientes para interceptar.

Algumas universidades estão avançando nisso: ouvidorias com canais específicos para pós-graduação, comissões de ética que se levam a sério, processos de avaliação anônima dos orientadores pelos orientandos. Mas ainda é exceção.

A lógica da evasão como indicador ignorado

Existe um dado que os programas de pós-graduação têm acesso mas raramente usam como instrumento de autoavaliação: a taxa de evasão.

Quando um aluno abandona o programa, o mais comum é que o sistema registre a evasão como fato e siga em frente. Em alguns casos, o abandono é culpado ao aluno: “não tinha perfil”, “não estava pronto”, “subestimou o que seria”.

O que raramente acontece é uma investigação real sobre por que o estudante saiu. O que estava acontecendo na relação de orientação? Havia condições financeiras que impediam a continuidade? O estudante tentou comunicar dificuldades e não encontrou escuta? O ambiente do programa era hostil de alguma forma?

Essas perguntas importam. A evasão em pós-graduação não é só uma estatística negativa para o Qualis do programa: é um sinal de que algo não funcionou. E ignorar esse sinal porque é desconfortável examiná-lo é uma forma de responsabilidade negada.

O que diferencia um bom programa de um ruim

Isso tudo pode parecer abstrato, então quero ser específica: o que concretamente diferencia programas que têm mais cuidado com seus estudantes dos que têm menos?

Programas mais cuidadosos geralmente têm rodadas regulares de acompanhamento com os pós-graduandos, além dos momentos formais como qualificação e defesa. Têm professores que conhecem os estudantes além da relação direta de orientação. Têm coordenadores que respondem a mensagens e que tratam problemas com seriedade antes que virem crises.

Têm, também, uma cultura diferente em relação ao fracasso. Em programas mais saudáveis, pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Recalibrar expectativas quando algo não está funcionando é tratado como sabedoria, não como incompetência.

Isso não é utopia. Existem programas assim. A questão é que eles são exceção, e não regra.

Como usar esse entendimento para se proteger

Reconhecer a responsabilidade institucional não é uma escolha entre agir ou esperar que as instituições mudem. É possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Enquanto você navega pelo sistema como ele é, existem formas de criar proteção real para você mesmo. Conhecer o regimento do seu programa de verdade, não como burocracia, mas como documento que define os direitos e deveres de todos os envolvidos. Documentar combinados com seu orientador sempre que possível, mesmo que seja um e-mail de confirmação depois de uma reunião. Construir relações com outros professores do programa para não ter uma única rede de suporte. Conhecer os canais de ouvidoria e de denúncia antes de precisar deles.

Isso é trabalho extra que não deveria ser necessário. Mas é trabalho que pode fazer diferença quando as coisas ficam difíceis.

O que a CAPES poderia fazer que ainda não faz suficientemente

A CAPES avalia os programas de pós-graduação com critérios que incluem produção científica, internacionalização, impacto social e formação de recursos humanos. O que não entra de forma sistemática nessa avaliação são as condições humanas em que essa produção é gerada.

Não há métrica de Qualis que penalize um programa onde a taxa de evasão é alta por razões ligadas a ambiente hostil. Não há critério que deduza pontos de um programa onde as relações de orientação abusivas são conhecidas mas toleradas.

Isso está começando a mudar, timidamente. Há conversas no campo sobre indicadores de bem-estar discente e sobre como incorporá-los nas avaliações. Mas mudanças regulatórias nessa direção são lentas, e enquanto elas não chegam, os programas têm pouco incentivo estrutural para investir no que não é medido.

Não é ingenuidade esperar que a CAPES mude seus critérios: é reconhecer que, sem pressão do campo e dos próprios pesquisadores, a inércia institucional prevalece.

Por que dizer isso em voz alta importa

Existe uma razão para eu escrever sobre isso num blog voltado para quem está na pós ou pensando em entrar.

Quando os problemas estruturais da pós-graduação são discutidos publicamente, fica mais difícil para as instituições tratá-los como casos individuais isolados. Fica mais difícil responder ao sofrimento de um estudante com “isso é pessoal” quando a conversa já acontece em escala suficiente para mostrar que não é.

Você não está sozinho no que está sentindo, se está sentindo. Pesquisadores, professores e ativistas dentro da academia estão fazendo essa conversa crescer, e ela precisa crescer. E se está bem, isso não significa que as condições estruturais não existem: significa, em parte, que você teve sorte com o seu orientador, com o seu programa, com o momento de vida em que entrou.

Sorte não deveria ser o fator determinante da experiência na pós-graduação. Boas estruturas institucionais deveriam.

Enquanto elas não existem universalmente, a consciência sobre o que deveria existir é o primeiro passo para exigi-las.

Perguntas frequentes

Qual é a responsabilidade das universidades com a saúde mental dos pós-graduandos?
As universidades têm responsabilidade institucional de oferecer condições dignas de trabalho e estudo, mecanismos de proteção nas relações de orientação, serviços de apoio à saúde mental acessíveis e canais efetivos de denúncia. Isso não é favor: é parte do contrato tácito de formação.
O que os programas de pós-graduação poderiam fazer diferente para proteger os estudantes?
Poderiam ter mecanismos de acompanhamento regular do andamento e do bem-estar dos pós-graduandos, limites claros sobre o que pode ser exigido pelos orientadores, canais de ouvidoria que funcionem de verdade e colegiados que não silencie denúncias por lealdade corporativa.
Como um pós-graduando pode se proteger institucionalmente?
Conhecer o regimento do programa, documentar combinados com o orientador, ter a ata de reuniões de orientação quando possível, conhecer os canais de denúncia da instituição e construir relações com outros professores do programa além do orientador são formas de criar redes de proteção reais.
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