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Salami Slicing: Fatiando a Ciência para Publicar Mais

Salami slicing é a prática de dividir uma pesquisa em múltiplos artigos menores. Entenda por que é considerada má conduta e por que persiste na academia.

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Uma prática que todo mundo conhece e poucos nomeiam

Vamos lá. Se você já foi a um congresso de pós-graduação ou leu a lista de publicações de alguns pesquisadores no Lattes, provavelmente já se deparou com isso: artigos que se parecem muito uns com os outros. Mesma amostra, mesmo campo, metodologia idêntica, conclusões que são continuação direta umas das outras. Três artigos que, juntos, formariam um trabalho coerente, mas que foram publicados separadamente em três periódicos diferentes.

Isso tem nome: salami slicing. E é, formalmente, uma forma de má conduta científica.

A razão para isso é simples: publicações acadêmicas são avaliadas como unidades independentes de contribuição ao conhecimento. Quando você divide artificialmente uma pesquisa para gerar mais unidades, está inflando artificialmente sua produção.

Por que persiste

A honestidade intelectual exige que eu diga com clareza: o salami slicing persiste porque o sistema avaliativo da academia o incentiva.

No Brasil, as avaliações quadrienais da Capes olham para número de publicações por pesquisador e por programa. Bolsas de produtividade do CNPq consideram volume de publicações. Concursos docentes contam artigos publicados. O Lattes é, em boa medida, uma lista de itens.

Num sistema assim, a lógica de maximizar o número de artigos tem racionalidade própria. Não é apenas ganância ou desonestidade individual. É uma resposta a incentivos institucionais que valorizam quantidade sobre qualidade, ou pelo menos não penalizam quem privilegia uma em detrimento da outra.

Isso não muda o fato de que a prática é problemática. Mas explica por que tantos pesquisadores a adotam sem sentir que estão fazendo algo errado, ou sentindo, mas achando que a alternativa seria colocar em risco sua carreira.

O dano para a ciência como sistema

O salami slicing não é só um problema de ética individual. Tem consequências para o funcionamento da ciência como sistema de produção de conhecimento.

O primeiro dano é o desperdício de recursos da revisão por pares. Revisores são pesquisadores que dedicam tempo, sem remuneração, para avaliar manuscritos. Quando um artigo é, na prática, um fragmento de um trabalho maior que deveria ter sido publicado como peça única, esse tempo foi gasto de forma que não gera valor proporcional.

O segundo é o ruído na literatura científica. Cada vez que alguém busca o estado da arte numa área e precisa ler cinco artigos para entender o que poderia estar num só, o processo de síntese do conhecimento se torna mais trabalhoso e mais sujeito a erros.

O terceiro é a distorção das métricas de produção científica. Se índice h e número de publicações são usados para avaliar pesquisadores, e esses índices podem ser inflados por salami slicing, as métricas perdem capacidade de distinguir produção científica genuinamente relevante de produção inflada artificialmente.

A linha entre publicação legítima e salami slicing

Aqui está onde as coisas ficam mais complexas, e onde pesquisadores com boa-fé às vezes ficam inseguros.

Nem toda publicação que parte da mesma pesquisa ou do mesmo banco de dados é salami slicing. Estudos longitudinais publicam resultados em diferentes momentos porque cada momento gera perguntas distintas. Pesquisas com múltiplas análises podem produzir artigos independentes se cada análise responde a uma pergunta que tem valor autônomo. Uma dissertação pode gerar três artigos se cada um apresenta uma contribuição teórica ou empírica genuinamente distinta.

O critério que mais ajuda é o da independência intelectual: cada artigo precisa fazer sentido por si mesmo, com sua própria pergunta, sua própria metodologia (mesmo que compartilhe aspectos com outros do mesmo projeto) e suas próprias conclusões. Se para entender um artigo o leitor precisar ter lido o anterior, é um sinal de alerta.

Alguns periódicos pedem que, ao submeter, você declare explicitamente se o trabalho faz parte de uma série e qual é a relação com outros artigos publicados. Essa declaração é tanto uma medida de transparência quanto uma proteção para o pesquisador que está fazendo publicação legítima em série.

O que eu defendo sobre isso

Tenho uma posição clara aqui: o salami slicing é um problema, e o problema maior está no sistema que o incentiva, não apenas nos indivíduos que o praticam.

Enquanto programas de pós-graduação forem avaliados por número de publicações por docente, enquanto bolsas de pesquisa usarem produção bibliográfica como métrica central e enquanto concursos docentes contarem artigos em vez de pesar contribuições, haverá incentivo para fatiar pesquisas.

A solução não está em moralizar o comportamento individual. Está em reformar as métricas de avaliação para valorizar qualidade e impacto sobre quantidade bruta. O movimento de ciência aberta e de avaliação responsável da pesquisa, que inclui iniciativas como o San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA), aponta para esse caminho.

Enquanto isso não muda de forma sistemática, o que eu sugiro para quem está construindo uma carreira acadêmica com integridade é o seguinte: publique menos e melhor, quando tiver escolha. Resista à lógica de que mais publicações equivale a mais valor científico. Sua reputação de longo prazo vai depender mais da profundidade e do impacto do que você publicou do que do volume.

Isso é mais fácil de dizer do que de fazer quando você está tentando passar por uma avaliação quadrienal ou conseguir uma bolsa produtividade. Eu sei. Mas vale nomear o problema e resistir onde é possível resistir.

Para continuar essa discussão sobre integridade na publicação acadêmica, veja também os posts sobre autoria honorária e sobre o sistema de publicação acadêmica e seus problemas estruturais.

Como editores e pareceristas identificam o problema

A detecção do salami slicing por parte de editores de periódicos científicos melhorou nos últimos anos, não por mágica, mas por sistemas de verificação mais sofisticados.

Muitos periódicos de alto impacto usam ferramentas que cruzam o texto submetido com publicações anteriores dos autores. Uma sobreposição significativa de texto, de amostras ou de metodologia com artigos anteriores acende um alerta. Alguns periódicos solicitam explicitamente que autores declarem se a pesquisa faz parte de uma série e se dados do mesmo estudo foram usados em outras publicações.

Pareceristas que trabalham em áreas pequenas muitas vezes reconhecem os dados: “esse banco de dados parece o mesmo que apareceu no artigo X”. Em comunidades científicas pequenas, o reconhecimento acontece de forma natural.

O que dificulta a identificação é que muitas vezes os artigos são enviados para periódicos diferentes e avaliados por revisores diferentes, sem que nenhum deles tenha visão do conjunto. A fragmentação é, em parte, uma característica que favorece a prática.

A perspectiva de quem está no início da carreira

Para mestrandos e doutorandos que estão publicando seus primeiros artigos, a pressão para gerar publicações pode ser intensa. O orientador precisa de publicações para manter a nota do programa. O estudante precisa de publicações para o currículo. O prazo do mestrado ou doutorado é curto.

Nesse contexto, a tentação de fragmentar é real. Se os dados permitem dois artigos em vez de um, a conta parece simples.

O que eu diria para quem está nessa posição: se a fragmentação for genuinamente justificada, e às vezes é, faça com transparência. Declare a relação entre os artigos. Cite o anterior quando o posterior depender dele. Informe o editor. Essa transparência não é fraqueza, é integridade.

Se a fragmentação não for justificada, e você sabe quando não é, o custo de curto prazo de publicar menos é menor do que o custo de longo prazo de uma reputação construída sobre produção inflada.

Perguntas frequentes

O que é salami slicing em publicação científica?
Salami slicing é a prática de dividir artificialmente os resultados de uma única pesquisa em múltiplos artigos separados, cada um com uma fatia dos dados originais, para aumentar o número de publicações. O nome vem da imagem de fatiar um salame: o que deveria ser uma peça só vai sendo cortado em partes cada vez menores.
Salami slicing é diferente de publicação em série legítima?
Sim, e a distinção importa. Publicação em série é legítima quando cada artigo apresenta questões de pesquisa independentes, análises distintas ou contribuições teóricas autônomas, mesmo que partam do mesmo contexto geral de pesquisa. O problema do salami slicing é quando os dados de um único estudo são repartidos sem que cada peça tenha valor científico independente suficiente para justificar a publicação separada.
Como evitar o salami slicing sem deixar de publicar de forma produtiva?
A pergunta que vale fazer antes de submeter um artigo é: esse trabalho faz sentido sozinho, ou depende de outro artigo para ser compreendido? Se a resposta for que ele depende de um artigo anterior para ter sentido, há um sinal de alerta. Um artigo sólido precisa ter pergunta de pesquisa, método, dados e conclusão próprios, mesmo que se insira numa linha de pesquisa mais ampla.
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