Posicionamento

Teto de Vidro na Ciência: Mulher Sobe até Onde?

O teto de vidro existe na academia brasileira. Entenda por que as mulheres predominam na graduação mas somem nas posições de poder na pós-graduação e na ciência.

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A pirâmide que ninguém te mostra

Olha só: existe um padrão no sistema acadêmico brasileiro que não aparece nos folhetos de divulgação das universidades, mas está nos dados públicos para quem quiser olhar.

As mulheres são maioria na graduação. São praticamente metade nas turmas de mestrado. Começa a cair no doutorado. Cai mais na pós-doutorado. Cai mais ainda entre os professores adjuntos. E quando você chega no topo, entre professores titulares, coordenadores de programa, bolsistas de produtividade 1A do CNPq, reitores, você encontra majoritariamente homens.

Isso tem um nome. Chama-se teto de vidro, e na ciência ele é particularmente teimoso.

Não estou falando de opinião. Estou falando de um padrão estrutural que aparece nos dados e que afeta a vida concreta de pesquisadoras no Brasil todos os dias. E é sobre isso que quero falar aqui.

O que os dados mostram

O CNPq publica dados sobre distribuição de bolsistas por gênero. Os dados mais recentes (relatório CNPq 2022-2023) indicam que, entre os bolsistas de produtividade em pesquisa, as mulheres são maioria apenas nos níveis iniciais e nas áreas de ciências humanas, saúde e sociais. Nas ciências exatas, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), a sub-representação feminina é histórica e persistente.

Na pós-graduação como um todo, os dados do CAPES/Geocapes mostram que, apesar da paridade crescente entre mestres e doutores, a proporção de mulheres entre docentes permanentes dos programas ainda está abaixo de 50% na maioria das áreas.

O que é mais revelador é a trajetória. As mulheres entram no sistema em número semelhante ao dos homens. E vão saindo aos poucos à medida que a carreira avança. Esse não é um problema de acesso. É um problema de permanência e progressão.

Por que isso acontece: o que a pesquisa aponta

Existem algumas explicações que aparecem consistentemente na literatura sobre gênero na ciência.

A dupla jornada não é só metáfora. Estudos de uso do tempo mostram que pesquisadoras dedicam, em média, muito mais horas semanais do que seus pares masculinos ao trabalho doméstico e ao cuidado de filhos e outros dependentes. Esse tempo existe e ele sai de algum lugar: geralmente de horas de pesquisa, de publicação, de participação em congressos, de construção de rede profissional.

As redes de colaboração são generificadas. Parte significativa do avanço na carreira acadêmica acontece por meio de redes informais de colaboração: quem convida quem para co-autoria, quem indica para posições, quem menciona um nome em uma conversa de corredor. Essas redes tendem a ser mais densas entre homens porque os grupos informais de poder historicamente os excluíram.

Os processos avaliativos têm vieses embutidos. Critérios como volume de publicações, sem considerar interrupções de carreira, desfavorecem quem ficou fora do sistema por licença-maternidade ou por assumir cuidados. A produtividade científica feminina costuma ter lacunas que os sistemas de avaliação interpretam como menor comprometimento.

O espaço seguro para falar é menor. Em reuniões acadêmicas, pesquisas de comunicação científica mostram que mulheres são interrompidas com mais frequência, têm suas ideias menos citadas quando as mesmas ideias ditas por um homem recebem mais atenção. Isso condiciona quem fala, com que intensidade, e quem ocupa espaço.

”Mas as mulheres podem, basta querer”

Esse argumento aparece o tempo todo e precisa ser confrontado diretamente.

A ideia de que as mulheres simplesmente “não querem” ou “não se candidatam” para as posições mais altas ignora completamente as condições estruturais que moldam o que é possível querer, quando se tem filhos sem rede de apoio, quando se está em uma instituição cujas políticas de promoção foram desenhadas por e para homens sem dupla jornada.

Quando uma mulher “decide” não tentar uma bolsa de produtividade, essa decisão acontece dentro de um contexto: o peso da dupla jornada, a expectativa de que ela vai ser a principal cuidadora, a percepção de que certas salas não têm espaço para ela, o custo emocional de entrar em ambientes onde você é a única mulher na mesa.

Isso não é escolha livre. É adaptação a constrangimentos.

O que muda quando há mais mulheres no topo

Aqui vai um argumento que prefiro colocar com cuidado, porque não quero cair no essencialismo.

Não é que mulheres pesquisem melhor. Ou que tenham mais empatia por natureza. Mas existe evidência de que grupos mais diversos tomam melhores decisões, porque são expostos a mais pontos de vista, identificam mais pontos cegos.

Pesquisadoras mulheres em posições de liderança tendem a selecionar mais outros pesquisadores de grupos sub-representados, a criar políticas mais sensíveis às diversas trajetórias, a trazer agendas de pesquisa que antes eram consideradas “menores” e que na prática dizem respeito à maioria da população.

Quando as mulheres somem dos postos de decisão científica, não é só a equidade que perde. É a qualidade e a diversidade do que é produzido.

O que as universidades e agências poderiam fazer

Não me interessa uma lista de soluções ideais desconectadas da realidade. Mas algumas mudanças concretas já existem em discussão.

O CNPq tem avançado na discussão sobre ajuste de critérios para bolsas de produtividade para considerar interrupções por maternidade. É lento. É insuficiente. Mas está acontecendo.

Alguns programas de pós-graduação têm implementado políticas de prorrogação de prazo para doutorandas com filhos pequenos. Isso é concreto e faz diferença.

A exigência de listas curtas paritárias em processos seletivos para cargos de liderança acadêmica tem mostrado resultados em contextos internacionais.

O que ainda falta é entender que política de equidade não é benefício. É correção de distorção sistêmica.

A maternidade e a carreira acadêmica: o nó específico

Preciso falar sobre maternidade porque é onde o teto de vidro se manifesta de forma mais brutal.

No Brasil, a maioria dos programas de pós-graduação oferece prorrogação de prazo para doutorandas que têm filhos durante o doutorado. Na prática, essa política existe no papel mas nem sempre é implementada sem resistência. E mesmo quando é, o dano já ocorreu: meses fora do sistema são meses sem publicações, sem participação em eventos, sem construção de rede.

O período de maior exigência de produtividade da carreira acadêmica coincide biologicamente com o período em que muitas mulheres escolhem ter filhos, entre os 28 e os 38 anos. Isso não é coincidência. É uma estrutura que foi desenhada quando a carreira científica era pensada para homens com esposas que cuidavam da casa e dos filhos.

Pesquisadoras que são mães relatam consistentemente que precisam trabalhar mais do que colegas homens pais para obter o mesmo reconhecimento. Não porque sejam menos capazes, mas porque o standard de referência nunca foi calibrado para quem tem dupla jornada.

O viés inconsciente nos processos de seleção

Tem um fenômeno bem documentado na psicologia social chamado viés de confirmação que opera nos processos de seleção de pessoal acadêmico. Quando os avaliadores têm em mente um modelo implícito de “bom pesquisador”, traços que estão mais associados a características masculinas como assertividade, volume de publicações, mobilidade irrestrita, esses traços funcionam como filtro invisível.

Estudos com currículos idênticos com nomes masculinos versus femininos mostram diferença de avaliação. Isso foi testado em múltiplos contextos, incluindo o acadêmico. Não é má-fé de nenhum avaliador individual. É um padrão cognitivo que opera abaixo da consciência e que afeta decisões reais.

A solução não é cegar os processos completamente, o que tem limitações. É tornar os critérios explícitos, treinar avaliadores, e criar mecanismos de checagem para decisões importantes.

O que você pode fazer agora, onde está

Se você está em posição de decisão em algum nível: ao convidar alguém para co-autoria, ao indicar uma colega para uma posição, ao nomear revisoras para um periódico, essas escolhas importam. O acúmulo de escolhas individuais cria as condições estruturais que alimentam ou corroem o padrão.

Se você é pesquisadora vivenciando esses constrangimentos: nomear o que está acontecendo já é um ato político. Você não está “sendo sensível demais”. Você está identificando um padrão real.

E se você está no começo da carreira, tentando entender se há espaço para você nessa estrutura: há. E o fato de você estar aqui, perguntando, lendo, tentando entender, já é parte do que muda a história.

Aqui no blog, falamos sobre a vida real da pesquisa, não a versão esterilizada que aparece nos comunicados institucionais. Dá uma olhada em como funciona a jornada de quem pesquisa de verdade. E se quiser continuar essa conversa, estou aqui.

Perguntas frequentes

Existe teto de vidro na academia e na ciência brasileira?
Sim. Apesar de as mulheres serem maioria nas graduações e representarem cerca de metade dos mestrandos, elas somem progressivamente nos cargos mais altos: são minoria entre professores titulares, coordenadores de programas e bolsistas de produtividade do CNPq.
Por que as mulheres somem nos níveis mais altos da carreira acadêmica?
Há múltiplos fatores: a dupla jornada de trabalho e cuidado, a desigualdade nas redes de colaboração científica, processos seletivos com critérios que desfavorecem mulheres que tiveram interrupções na carreira, e culturas institucionais que associam liderança a características socialmente masculinas.
Como o sistema de avaliação da CAPES e do CNPq afeta a carreira das pesquisadoras?
Os critérios de avaliação costumam privilegiar produção contínua e volume de publicações, o que desfavorece pesquisadoras que vivenciaram interrupções por maternidade, licenças ou cuidados. Há movimentos dentro do próprio CNPq para ajustar esses critérios.
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