Posicionamento

Universidade do Interior: A Pesquisa Invisível

A ciência feita nas universidades do interior do Brasil existe, é relevante e está apagada. É hora de falar sobre o que significa pesquisar longe dos grandes centros.

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A pesquisa que acontece longe dos holofotes

Olha só. Quando a mídia fala sobre ciência brasileira, geralmente aparece USP, UNICAMP, UFRJ, UFMG. Quando a gente pensa em pesquisa de excelência no Brasil, o mapa mental vai automaticamente para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas.

E o resto do Brasil?

Tem pesquisa sendo feita em Sobral, no Ceará. Em Sinop, no Mato Grosso. Em Viçosa, em Diamantina, em Chapecó, em Juazeiro do Norte. Pesquisa séria, com rigor metodológico, sobre problemas que são locais mas que dizem respeito ao país inteiro.

Essa pesquisa existe. Ela só está invisível.

O que significa pesquisar no interior

Quem fez pós-graduação numa universidade do interior sabe o que estou falando. Sabe o que é não ter laboratório com os equipamentos que você precisa. Sabe o que é depender de convênio com uma instituição maior para usar infraestrutura. Sabe o que é estar longe das redes informais de colaboração que se formam em cidades com muitos pesquisadores.

Sabe também o que é pesquisar temas que não têm visibilidade porque as agências de fomento não os reconhecem como prioritários. Sabe o que é ver o seu objeto de estudo, a comunidade rural ao lado do campus, o rio que passa pelo município, a doença negligenciada que afeta aquela região específica, não aparecer na pauta dos grandes grupos de pesquisa.

Pesquisar no interior não é uma desvantagem em termos de capacidade intelectual. É uma desvantagem estrutural em termos de acesso a recursos, redes e visibilidade.

O mapa da pós-graduação brasileira

Em 2024, de acordo com dados da CAPES, mais da metade dos programas de pós-graduação do Brasil estavam concentrados nas regiões Sul e Sudeste. A região Norte tinha menos de 10% dos programas. O Nordeste, com mais de um quarto da população brasileira, não chegava a 20% dos programas.

Isso não é só uma questão de distribuição geográfica. É uma questão de quem tem acesso à formação de pesquisadores, de onde é produzido o conhecimento que vai orientar políticas públicas, de quais problemas o sistema científico considera importantes.

Se a maioria dos programas está em São Paulo e no Rio, a maioria das pesquisas vai refletir as questões, os contextos e as perspectivas dessas regiões. As demandas do Norte, as especificidades do Nordeste, os problemas do Centro-Oeste entram como objetos de estudo periféricos, quando entram.

A CAPES e os critérios que penalizam o interior

A avaliação da CAPES usa critérios de produção científica que incluem publicações em periódicos de alto impacto, participação em congressos internacionais e captação de recursos externos. Tudo isso é mais difícil quando você está em uma universidade pequena do interior.

Um pesquisador em São Paulo tem mais acesso à rede de contatos que facilita publicações em coautoria com pesquisadores internacionais. Tem mais facilidade de participar de congressos nacionais sem incorrer em custo de deslocamento e hospedagem que consumiria toda a verba de pesquisa. Tem mais visibilidade para captação de recursos em editais competitivos.

O sistema de avaliação não foi construído para ser injusto com o interior. Mas acabou sendo, porque usa critérios que refletem condições que nem todas as universidades têm igualmente.

Um programa de pesquisa em epidemiologia de doenças tropicais numa universidade federal do interior do Amazonas pode ser metodologicamente sólido e cientificamente relevante, mas vai ter mais dificuldade de acumular os indicadores que a CAPES valoriza do que um programa em São Paulo com mais recursos, mais parcerias e mais acesso a redes internacionais.

O papel das universidades do interior na ciência local

Há algo que as universidades do interior fazem que as grandes centros não fazem, e que raramente é contabilizado: elas pesquisam o próprio território.

A biodiversidade da Caatinga, os sistemas de saúde de municípios pequenos, a agricultura familiar do semiárido, as línguas indígenas que só existem em determinadas regiões, as especificidades epidemiológicas de populações rurais. Esses são temas que provavelmente não entrariam na agenda dos grandes centros de pesquisa sem as universidades do interior.

E isso tem valor. A ciência brasileira precisa de pesquisadores que conheçam o Brasil todo, não só o Brasil das metrópoles.

O problema é que esse valor raramente é reconhecido nos critérios de avaliação. Uma tese sobre as práticas de saúde de uma comunidade quilombola no interior da Bahia, rigorosamente conduzida e relevante para aquela população, pode ter menos impacto nos indicadores CAPES do que uma tese sobre um tema de menor relevância social mas publicada em periódico de alto fator de impacto.

Isso é um problema de design do sistema de avaliação, não uma sentença sobre o mérito da pesquisa.

O que eu penso sobre isso

Tenho uma posição clara nesse debate: o preconceito com a pesquisa do interior é real, é injusto e tem custo para a ciência brasileira.

Não estou dizendo que todas as pesquisas produzidas no interior são excelentes. Como em qualquer lugar, há trabalhos bons e trabalhos ruins. Estou dizendo que a localização geográfica não é preditor de qualidade, e que tratá-la como tal é intelectualmente desonesto.

Quando uma pesquisadora do interior apresenta um trabalho em congresso e precisa se defender de questionamentos que não seriam feitos se ela fosse de uma universidade renomada de São Paulo, isso não é avaliação científica. É preconceito disfarçado de critério.

Quando um programa de pós-graduação do interior não consegue atrair bolsistas porque os candidatos preferem ir para os grandes centros, independente da qualidade do programa, isso é uma assimetria estrutural com consequências reais para o desenvolvimento científico regional.

O que poderia mudar

A crítica que faço aqui não é só sobre como as coisas estão. É também sobre como poderiam estar.

A CAPES poderia criar critérios diferenciados de avaliação que reconheçam as condições estruturais diferentes de programas em regiões periféricas. Não é pedir para avaliar com critérios menores. É avaliar com critérios mais justos.

As agências de fomento poderiam ter editais específicos para pesquisa desenvolvida em regiões com menor concentração de recursos. A FAPESP tem isso para São Paulo, mas os estados do Norte e Nordeste têm Fundações de Amparo à Pesquisa muito menores e com menos recursos.

A mobilidade acadêmica poderia ser incentivada de forma a trazer pesquisadores de grandes centros para colaborar com universidades do interior, e não só o contrário.

Mas essas mudanças dependem de reconhecer que há um problema. E o primeiro passo é parar de tratar a invisibilidade da pesquisa do interior como algo natural.

Para quem pesquisa no interior

Se você está fazendo sua dissertação ou tese em uma universidade do interior, quero que você saiba: a sua pesquisa não é menor porque você está longe dos grandes centros.

As condições são mais difíceis. A rede de apoio é menor. O acesso a recursos é mais restrito. Mas o rigor com que você conduz sua pesquisa, a clareza com que você formula suas perguntas, a honestidade com que você apresenta seus resultados, isso não tem relação com o CEP do seu campus.

O sistema tem assimetrias que não são sua culpa. Navegar por elas sem deixar que minarem sua confiança no trabalho que está fazendo é mais difícil do que deveria ser. Mas é possível.

E o trabalho que você está fazendo importa, mesmo que ainda não tenha o reconhecimento que merece.

A colaboração como caminho

Uma coisa que universidades do interior têm feito com crescente sucesso é a construção de redes de colaboração interinstitucionais. Quando você não tem tudo dentro do seu campus, aprende a buscar parcerias.

Isso tem um efeito interessante: pesquisadores do interior frequentemente desenvolvem habilidades de articulação e colaboração que são diferentes das de quem sempre teve acesso facilitado a tudo. Saber construir pontes, saber negociar recursos, saber trabalhar com o que tem sem perder o rigor metodológico, são competências que a escassez ensina.

Não estou romantizando a falta de recursos. A escassez é um problema real que precisa ser resolvido estruturalmente. Mas também é verdade que, dentro das condições que existem, pesquisadores do interior têm encontrado formas criativas de fazer ciência que merecem ser reconhecidas.

Veja também a página sobre para conhecer mais sobre a perspectiva que orienta este blog, e explore outros posts sobre posicionamento na academia.

Perguntas frequentes

Universidades do interior têm programas de pós-graduação de qualidade?
Sim. Existem programas de pós-graduação em universidades do interior com notas 4, 5 e até 6 na avaliação CAPES. A qualidade não é determinada pela localização geográfica, mas pela solidez do programa, pelo perfil dos docentes e pela pertinência da pesquisa produzida. Generalizar que interior é inferior é um preconceito sem base empírica.
Por que a pesquisa feita no interior do Brasil é menos visível?
Há múltiplos fatores: menor acesso a redes de colaboração nacionais e internacionais, menor presença em congressos de grande porte por questões financeiras, menor cobertura pela imprensa científica, e um padrão histórico de concentração de recursos e bolsas nas regiões metropolitanas. A invisibilidade não é mérito das universidades do interior. É consequência de uma assimetria estrutural.
Como pesquisadores de universidades do interior podem aumentar a visibilidade de suas pesquisas?
Publicar em periódicos indexados com acesso aberto, usar repositórios institucionais e plataformas como ResearchGate, apresentar trabalhos em congressos remotos, colaborar com pesquisadores de outras instituições e investir em divulgação científica digital são caminhos acessíveis independente da localização. A internet reduziu parte da desvantagem geográfica, mas não a eliminou.
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