Visiting Scholar: Como Ser Pesquisador Visitante
Entenda o que é o programa visiting scholar, como funciona na prática e quais os passos para conseguir uma vaga como pesquisador visitante no exterior.
A vaga que não está em edital nenhum
Olha só: a maioria das vagas de visiting scholar não é pública. Não tem edital, não tem inscrição online, não tem comissão de seleção analisando seu Lattes. A vaga existe porque um pesquisador aceitou te receber no laboratório dele. Ponto.
Isso assusta muita gente que está acostumada com os ritos formais da academia brasileira. Você estuda anos para passar em seleções que têm banca, prova, entrevista. E aí descobre que para virar pesquisadora visitante em Harvard ou em Leiden, o processo começa com um e-mail. Um e-mail bem escrito, direcionado para a pessoa certa, com uma proposta que faça sentido para ela. Mas ainda assim, um e-mail.
A modalidade visiting scholar tem nuances que variam muito de acordo com o país, a universidade e o perfil de quem está indo. Antes de partir para a estratégia, vale entender o que você está buscando.
O que exatamente é um visiting scholar
Visiting scholar, ou pesquisador visitante, é um pesquisador (mestre, doutorando, doutor, professor) que se associa temporariamente a uma instituição estrangeira para desenvolver parte de sua pesquisa. O vínculo é diferente do de um aluno regular. Você não está matriculada, não cursa disciplinas (salvo exceções negociadas), não defende nada naquela instituição. Você está lá para pesquisar, colaborar, acessar recursos, e produzir.
A duração varia muito. Pode ser três meses, seis meses, um ano, dois anos. Depende do acordo com o professor anfitrião e do financiamento disponível.
O que o visiting scholar tem de diferente do doutorado sanduíche? Principalmente a flexibilidade. O sanduíche é uma modalidade regulamentada pela CAPES, exclusiva para doutorandos ativos, com requisitos específicos de prazo e desempenho. O visiting scholar é mais aberto: pode ser para quem está em qualquer fase da carreira, pode ter financiamentos variados, e a relação com a instituição anfitriã é menos formal.
Isso significa tanto mais liberdade quanto menos estrutura de suporte. Você precisa ser mais proativa para construir sua rede lá fora, porque não tem um programa institucional cuidando de você.
Por que ir como visiting scholar
As razões costumam se combinar de formas diferentes para cada pessoa. Mas algumas aparecem sempre.
Acesso a recursos que não existem no Brasil. Equipamentos de ponta, bases de dados restritas, coleções de arquivos históricos, laboratórios especializados, acervos únicos. Para algumas áreas de pesquisa, simplesmente não existe como fazer certo trabalho sem acesso a esses recursos.
Trabalhar ao lado de quem está na fronteira do campo. Ler os artigos de alguém é uma coisa. Estar na mesma sala, participar das reuniões de grupo, discutir dados em tempo real, é completamente diferente. Esse tipo de imersão muda como você pensa sobre sua pesquisa.
Construir rede internacional de verdade. “Networking” virou palavra desgastada, mas a realidade é que pesquisadores que fizeram estágios no exterior têm colaborações, co-autorias e referências que simplesmente não se constroem por e-mail. O visiting scholar cria a condição para essas relações se formarem.
Ganhar perspectiva sobre seu próprio trabalho. Apresentar sua pesquisa para um grupo com outra formação, receber críticas de quem não está dentro das mesmas tradições teóricas que você, é desconfortável e extremamente valioso.
Como funciona o processo na prática
Vou descrever como costuma funcionar, sabendo que há variações.
Passo 1: Identificar o pesquisador certo
Não é qualquer pesquisador de universidade famosa. É a pessoa cujo trabalho conversa diretamente com o que você está fazendo. Isso exige que você conheça bem a literatura internacional do seu campo, identifique quem está publicando o que é relevante para você, e entenda em qual laboratório ou grupo essa pessoa está inserida.
A reputação da universidade importa menos do que a qualidade e relevância do grupo de pesquisa. Um professor numa universidade regional alemã que pesquisa exatamente o que você pesquisa é muito melhor escolha do que um professor famoso em Harvard cujo trabalho tem pouca sobreposição com o seu.
Passo 2: O contato inicial
Esse é o passo onde a maioria trava. O e-mail para um pesquisador estrangeiro pedindo aceitação como visiting scholar precisa ser:
- Breve (não mais que três parágrafos)
- Específico (mostre que você leu o trabalho dele)
- Claro sobre o que você vai fazer lá e por quanto tempo
- Honesto sobre sua situação de financiamento (se já tem, mencione; se não tem, seja transparente)
Não manda seu Lattes completo de primeiro. Não faz texto longo explicando toda sua trajetória. Apresenta-se, explica a pesquisa em duas frases, diz por que especificamente aquele grupo faz sentido para você, e pergunta se há interesse em discutir uma possibilidade de visita.
A resposta pode demorar semanas. Pode não vir. Pode ser um “sim, mas não agora, me contate em X meses”. O processo exige persistência sem ser inconveniente.
Passo 3: A negociação e o carta de aceite
Se o pesquisador demonstrar interesse, vem uma fase de trocas de e-mails para alinhar período, objetivos, tipo de vínculo institucional. Muitas universidades têm procedimentos formais para aceitar visiting scholars, com formulários e aprovações administrativas. Outras são mais informais.
O que você vai precisar, para qualquer tipo de financiamento, é uma carta de aceite assinada pelo pesquisador anfitrião e, muitas vezes, também pela instituição. Essa carta precisa mencionar o período, o caráter da visita, e o comprometimento do professor em supervisionar suas atividades de pesquisa.
Passo 4: O financiamento
A carta de aceite em mãos, você busca o financiamento. As opções mais comuns para pesquisadores brasileiros:
- CAPES: tem editais específicos para mobilidade, incluindo o PDSE (Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior) para doutorandos, e outros para pós-doutorado
- CNPq: bolsas de pesquisa para pós-doutorado no exterior, entre outras modalidades
- Fundações estaduais: FAPESP, FAPERJ, FAPEMIG, FAPESC, entre outras, têm programas de apoio à mobilidade
- A própria instituição anfitriã: algumas universidades têm fundos para cobrir parte dos custos de pesquisadores visitantes, especialmente quando há colaboração em projetos com financiamento deles
- Programas bilaterais: CAPES tem acordos com agências de fomento de vários países (DFG alemão, FNRS belga, FCT português, etc.) que financiam mobilidade de forma compartilhada
Vale procurar na página de recursos do site uma lista atualizada de programas de financiamento para internacionalização.
Os erros mais comuns
Mandar o mesmo e-mail genérico para vinte professores. Pesquisadores reconhecem isso imediatamente. O e-mail que começa com “Estimado professor, tenho lido seus trabalhos com grande interesse” e não menciona nada específico vai direto para a lixeira.
Esperar que o professor faça o trabalho burocrático. O vínculo de visiting scholar às vezes exige muita papelada, e quem precisa se mover nessa papelada é você. O professor anfitrião assina o que for necessário, mas a responsabilidade de entender os procedimentos, preencher formulários e acompanhar o processo é sua.
Subestimar o tempo de planejamento. Identificar o pesquisador certo, fazer contato, conseguir aceite, solicitar o financiamento, e esperar a aprovação pode levar de seis meses a um ano. Quem começa esse processo três meses antes da data que quer viajar vai se frustrar.
Não ter objetivo claro para o período. “Quero ir para conhecer a universidade e crescer academicamente” não é suficiente. Você precisa saber o que vai produzir durante aquele período, qual parte da pesquisa vai avançar, o que vai levar de volta. Isso é importante para o seu desenvolvimento e é o que os professores e as agências de financiamento esperam.
O período lá fora
Quando você chega, a tendência natural é querer se adaptar sem incomodar. Cuidado com isso. Se você está lá como visiting scholar, você tem uma responsabilidade de participar. Participar das reuniões de grupo. Apresentar seu trabalho para o laboratório. Fazer as perguntas que só surgem quando você está presente.
O retorno mais valioso de um período como visiting scholar não é o que você produziu sozinha, mas as relações que construiu e a perspectiva que ganhou. Isso exige presença ativa, não só ocupar uma mesa na biblioteca.
A diferença entre estar lá e participar de lá
Há algo que aprendo com pesquisadoras que fizeram visiting scholar: a diferença entre física e presença.
Você pode estar fisicamente no laboratório estrangeiro por seis meses e ter uma experiência razoavelmente superficial, se ficar na mesa lendo artigos que poderia ler no Brasil, participando de reuniões como ouvinte silenciosa, e voltando para o apartamento sem ter criado nenhum laço de trabalho real.
Ou você pode estar lá por três meses e construir relações de trabalho que duram décadas, porque participou ativamente, apresentou seu trabalho para o grupo, fez perguntas nas reuniões, propôs leituras conjuntas, e foi a pessoa que chegou cedo e ficou até tarde nos dias de análise de dados.
O visto, o passaporte e a passagem comprada não criam presença. Você cria presença escolhendo, todos os dias, participar de verdade.
Isso também vale para a comunicação com o laboratório antes de chegar. Pesquisadoras que conversam com o supervisor anfitriã nos meses que antecedem a viagem, que chegam com projetos concretos para desenvolver e perguntas específicas para responder, aproveitam muito mais do que as que chegam sem um plano claro de o que vão fazer naquele período.
Valeu a pena?
Para quem foi, a resposta quase invariavelmente é sim, mas com ressalvas honestas. O período no exterior é enriquecedor e também é solitário, burocrático, caro em energia e frequentemente financeiramente apertado. As coisas que você vai aprender lá não cabem num artigo, mas a experiência tem um custo real que precisa ser levado a sério antes de embarcar.
Se você está organizando sua pesquisa com o Método V.O.E. e considera internacionalizar parte do processo, o visiting scholar é uma das possibilidades mais flexíveis disponíveis. Faz sentido considerá-la como parte de uma estratégia de formação, não como um item a ser marcado numa lista.
Agora, se fez sentido, o próximo passo é bem concreto: qual pesquisador você leria esta semana para começar a identificar quem seria seu anfitrião ideal?