Jornada & Bastidores

Voltar ao Brasil Depois da Pós-Graduação no Exterior

Ninguém fala do choque inverso de voltar ao Brasil após anos de pesquisa fora. O que muda, o que dói e o que fica depois que você cruza de volta a fronteira.

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O que ninguém avisa sobre a volta

Olha só: existe um corpus enorme sobre adaptação ao exterior. Artigos, relatos, grupos de apoio, guias para pesquisadores em mobilidade internacional. Sobre a volta, o silêncio é ensurdecedor.

Voltei ao Brasil depois de um período de pesquisa fora e encontrei um estranhamento que não esperava. Não de quem voltou e não reconhece mais o país. De quem voltou e não se reconhece mais da mesma forma nele.

Isso tem nome. Chama choque de retorno, ou reverse culture shock na literatura de mobilidade internacional. É menos estudado do que o choque cultural de chegada, mas existe e afeta pesquisadores de formas concretas.

E como quase ninguém avisa, você não está preparada para ele.

O que acontece na volta

O choque de retorno tem algumas faces diferentes, e nem todas aparecem ao mesmo tempo.

A burocracia. Você esquece o quanto a burocracia brasileira específica pode ser pesada. Não porque a burocracia estrangeira não exista, existe, mas você a tinha aprendido. Voltar significa reaprender um sistema que mudou parcialmente enquanto você estava fora, mais os trâmites de reinstalação: documentos, convênios, reintegração administrativa, atualização de cadastros em sistemas que não comunicam entre si.

As condições de pesquisa. Dependendo de onde você esteve, os laboratórios, os equipamentos, o acesso a bases de dados e a dinâmica de financiamento são diferentes do que você estava acostumada. Não necessariamente piores em tudo. Mas diferentes, e em alguns aspectos realmente mais limitados. Readaptar as expectativas sobre o que é possível fazer, com o que está disponível, leva tempo e pode ser frustrante.

As pessoas. Você mudou durante o período fora. Suas referências, suas formas de pensar sobre pesquisa, seus critérios de qualidade, sua noção do que é possível em termos de produção científica. As pessoas que ficaram também mudaram, às vezes em outras direções. Reencontrar amigos, colegas e família depois de anos fora envolve sempre uma negociação entre o que foi e o que é agora.

A rede. No exterior, você construiu uma rede. Volta para o Brasil e parte dessa rede fica do outro lado do oceano. Reconstruir rede local, especialmente em um contexto em que você ficou ausente por tempo suficiente para que parte dos contatos se diluísse, é trabalho que muitos subestimam.

O que fica de bom, que também ninguém conta

A volta é difícil. Isso precisa ser dito. Mas há coisas que ficam que têm valor real e que só aparecem depois que o choque inicial passa.

Você volta com a capacidade de circular entre contextos acadêmicos diferentes. Sabe que o jeito que as coisas são feitas aqui não é o único jeito possível, e que há escolhas em jogo em cada norma que parecia natural. Esse distanciamento crítico tem valor para a pesquisa e para a docência.

Você volta com uma rede internacional que não some quando você cruza a fronteira. Colaborações, referências, possibilidades de publicação conjunta, contatos em programas que podem receber seus próprios orientandos no futuro. Isso não aparece no currículo de forma imediata, mas vai aparecendo.

Você volta com uma perspectiva comparada que poucos pesquisadores que nunca saíram têm. Não como superioridade, mas como ferramenta analítica. Você viveu em outro sistema e pode falar sobre ele com propriedade, o que enriquece a forma como você pensa sobre o seu próprio.

A readaptação ao ritmo

Uma das coisas mais difíceis de articular é a diferença de ritmo. Ritmos acadêmicos variam muito entre contextos. Alguns ambientes de pesquisa têm uma velocidade de publicação, de discussão, de tomada de decisões que difere do que você encontrava no exterior. Alguns são mais lentos. Alguns têm outras urgências.

Readaptar-se ao ritmo leva tempo. E durante esse tempo, pode aparecer uma impaciência que precisa ser administrada com cuidado. Reclamar de tudo que é diferente do exterior isola. Fingir que não há nada diferente é ingênuo e impede que você contribua com o que aprendeu.

O ponto de equilíbrio é mais parecido com: “Eu vi como funciona lá. Aqui funciona diferente. O que posso trazer que seja útil sem destruir o que já funciona bem aqui?”

Não é fácil. Mas é o trabalho.

A pergunta que não some

Há uma pergunta que aparece, muitas vezes em silêncio, depois da volta: valeu a pena?

Não no sentido acadêmico. Nesse sentido, a resposta costuma ser sim para quem passa por períodos de pesquisa sólida no exterior. Mas no sentido de vida. Valeu os anos longe da família? As amizades que se diluíram? As escolhas que você não fez enquanto estava fora?

Não tenho resposta para isso porque a resposta é de cada pessoa. Mas acho importante nomear que a pergunta existe, porque ela é mais comum do que aparece nos relatos de quem volta com o sorriso do currículo preenchido.

O que posso dizer é que dar espaço para essa pergunta sem precisar respondê-la de imediato é saudável. Você acabou de passar por uma experiência significativa. O tempo de processamento existe e é legítimo.

O que ajuda no período de retorno

Nomear o que está acontecendo. Saber que choque de retorno existe e tem características identificáveis ajuda a não atribuir tudo a falha pessoal.

Não se isolar. A tentação de ficar apenas na própria cabeça durante a readaptação é grande. Procurar outras pessoas que passaram pela mesma experiência, grupos de pesquisadores com mobilidade internacional, conversas com quem viveu algo parecido, ajuda a normalizar o processo.

Dar tempo ao tempo. Dois meses não são suficientes para readaptação plena. Seis meses é um prazo mais realista para começar a se sentir em casa de novo, tanto no contexto pessoal quanto no acadêmico.

Reconstruir com intenção. Em vez de tentar retornar ao que era antes, o que frequentemente não é possível porque você não é mais a mesma pessoa, pensar em que tipo de presença acadêmica você quer construir daqui em diante. O que você quer fazer com o que aprendeu? Quem você quer ser como pesquisadora aqui?

Essa última pergunta é grande. Mas é uma boa pergunta para começar.

O que você carrega que não entra no currículo

Há um tipo de aprendizado que acontece durante períodos de pesquisa no exterior que não tem campo no Lattes. Não é o que você aprendeu sobre o tema da sua pesquisa. É o que você aprendeu sobre como funcionar em contextos diferentes dos seus, sobre incerteza, sobre recomeço.

Você aprendeu a fazer perguntas em reuniões em idioma que não é o seu. Isso parece pequeno, mas não é. Você aprendeu a navegar um sistema burocrático desconhecido sem a rede de apoio informal que você tinha aqui. Aprendeu o que você consegue fazer quando não tem as muletas habituais.

Esse aprendizado vai aparecer de formas não esperadas. Na forma como você recebe um orientando que está perdido. Na forma como você lida com situações novas na carreira. Na confiança de que você já se adaptou antes e pode se adaptar de novo.

É um capital que não se lista em publicações, mas que estrutura muito do que você vai construir daqui em diante.


A página sobre o trabalho que faço no blog fala um pouco sobre como a trajetória molda a perspectiva de pesquisa. E se você está no processo de definir a sua, os recursos disponíveis aqui podem ajudar.

Perguntas frequentes

O que é o choque de retorno depois de um período de pesquisa no exterior?
Choque de retorno (ou reverse culture shock) é o conjunto de dificuldades emocionais e de adaptação que acontecem quando você volta ao seu país de origem após um período prolongado fora. No contexto acadêmico, envolve a readaptação ao ritmo, às normas e às condições da pesquisa brasileira depois de anos em outro sistema. É menos falado do que o choque cultural de chegada, mas pode ser igualmente intenso.
Como é a reintegração ao sistema acadêmico brasileiro após doutorado ou pós-doc no exterior?
A reintegração varia muito dependendo da instituição, da área e das circunstâncias. Em geral, envolve um período de readaptação às burocracias específicas do sistema brasileiro, reencontro com limitações de financiamento e infraestrutura que você havia esquecido, e reconstrução de redes locais que podem ter se diluído durante a ausência. Para muitos pesquisadores, é também um período de reavaliação do que querem construir daqui em diante.
Vale a pena voltar ao Brasil após um período de pesquisa no exterior?
Essa é uma decisão altamente pessoal que depende de fatores profissionais, familiares e de valores. Academicamente, pesquisadores que voltam com formação internacional tendem a ter boa inserção no sistema brasileiro, especialmente em universidades federais e estaduais. Mas a decisão precisa levar em conta o que você quer construir, onde quer viver e o que considera uma vida com sentido. Não há resposta certa universal.
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