Voz do Pesquisador: Primeira ou Terceira Pessoa?
Primeira ou terceira pessoa na dissertação? Entenda o que essa escolha revela sobre sua epistemologia e quando cada uma é adequada.
A pergunta que todo mestrando faz em algum momento
Olha só: você está escrevendo a introdução da dissertação, digita “Eu observei que…” e para. Uma voz na cabeça diz: “Pode isso? Não é muito pessoal para um texto científico?”
Aí você muda para “A pesquisadora observou que…” e fica estranha também. Parece que você está falando de outra pessoa. Ou pior: “Observou-se que…” soa tão impessoal que parece que o fenômeno aconteceu sozinho.
Esse dilema gramatical parece pequeno. Mas ele revela algo bem maior: sua relação com o conhecimento que está produzindo.
Vamos lá.
Por que essa escolha importa mais do que parece
A voz gramatical não é detalhe de estilo. Ela é uma declaração epistemológica.
Quando você escreve na terceira pessoa, está sinalizando distância entre o pesquisador e o objeto investigado. Está dizendo: “Sou observador neutro, não interfiro no que estou vendo.” Essa é uma postura coerente com abordagens positivistas, onde a objetividade do cientista é um valor fundamental.
Quando você escreve na primeira pessoa, está fazendo o oposto: está assumindo que você está dentro da pesquisa, que suas escolhas metodológicas têm autoria, que sua perspectiva importa. Essa postura é coerente com abordagens interpretativas, fenomenológicas, críticas.
O problema não é escolher uma ou outra. O problema é escolher sem saber por quê.
O mito da terceira pessoa como única opção “séria”
Durante décadas, aprendemos que ciência séria se escreve na terceira pessoa do singular. “Verificou-se”, “constata-se”, “observa-se”. O sujeito da frase some. A ação acontece como se por conta própria.
Essa convenção tem raízes históricas na física e na química do século XIX, quando a ideia de reprodutibilidade requeria que o método existisse independentemente de quem o executasse. Se um experimento é replicável, faz sentido escrever como se o pesquisador fosse intercambiável.
Mas pesquisa qualitativa não funciona assim. Uma entrevista conduzida por você não é idêntica à mesma entrevista conduzida por outra pessoa. Seu histórico, suas perguntas de sondagem, sua presença física afetam as respostas. Apagar o pesquisador do texto quando ele estava completamente presente na coleta é, no mínimo, desonesto epistemologicamente.
Esse ponto foi levantado décadas atrás por pesquisadores como Clifford Geertz e continua sendo debatido. Não inventei aqui, é discussão consolidada na metodologia qualitativa.
Quando a terceira pessoa faz sentido
Há contextos em que a terceira pessoa é a escolha certa, não por tradição, mas por coerência.
Se você está conduzindo um experimento controlado com grupo controle e grupo experimental, se está testando uma hipótese onde o método precisa ser replicável independente de quem execute, a terceira pessoa reforça exatamente o que você quer comunicar: “Qualquer pesquisador que siga este protocolo obterá resultados comparáveis.”
Também faz sentido na terceira pessoa quando você está relatando dados de forma agregada, apresentando resultados estatísticos, ou descrevendo procedimentos de coleta que seguiram um protocolo fixo. Nesses momentos, colocar “eu calculei a média” em vez de “foi calculada a média” não acrescenta informação relevante.
A regra: use a terceira pessoa quando o pesquisador, de fato, é intercambiável com qualquer outro que seguisse o mesmo método.
Quando a primeira pessoa é necessária
Na pesquisa qualitativa, especialmente em etnografia, pesquisa narrativa, fenomenologia e estudos de caso, a presença do pesquisador não é acidental. É constitutiva.
Quando você entra em campo, você não é um instrumento neutro. Você tem um corpo, uma história, uma cor de pele, um gênero, uma classe social. Tudo isso afeta o que as pessoas te dizem, como te recebem, o que você percebe e o que você invisibiliza.
Reconhecer isso no texto é responsabilidade metodológica. Significa escrever: “Percebi que minha presença como mulher jovem influenciou as respostas das entrevistadas mais velhas” em vez de “Observou-se que o perfil do pesquisador influenciou as respostas.”
Na segunda versão, o “pesquisador” vira uma entidade abstrata. Você desaparece exatamente no momento em que seria mais honesto aparecer.
Faz sentido?
A solução que muita gente ignora: mistura coerente
Não existe regra que diga que você precisa usar só uma pessoa ao longo de toda a dissertação. O que existe é a necessidade de coerência contextual.
Você pode usar a primeira pessoa quando estiver:
- Descrevendo suas escolhas metodológicas e por que as fez
- Relatando suas experiências de campo, incluindo dificuldades e ajustes
- Apresentando sua interpretação dos dados
- Declarando sua posicionalidade
Você pode usar a terceira pessoa ou voz passiva quando estiver:
- Descrevendo procedimentos técnicos replicáveis
- Apresentando dados brutos e estatísticas
- Citando e parafraseando literatura
Uma dissertação que usa “Optei por uma abordagem narrativa porque…” na metodologia e “Foram coletadas 15 entrevistas semiestruturadas…” na descrição dos dados não está sendo inconsistente. Está sendo precisa.
O que diz a sua banca
Aqui vem a parte prática: de nada adianta saber toda essa discussão epistemológica se sua banca tem uma preferência rígida pela terceira pessoa.
Antes de definir qualquer padrão, converse com seu orientador. Pergunte explicitamente: “Qual voz gramatical você prefere para este trabalho, dado meu referencial teórico-metodológico?” Essa conversa vai economizar horas de revisão depois.
Se seu orientador não tem preferência, consulte as teses e dissertações defendidas no seu programa nos últimos dois anos. O padrão da sua área vai aparecer rapidamente. Não estou dizendo para seguir cegamente, mas para entender o campo em que você está inserida.
Se você quiser advogar pelo uso da primeira pessoa em um contexto que prefere a terceira, é possível, mas você precisa justificar metodologicamente. Não como capricho estilístico, mas como escolha fundamentada na sua epistemologia.
O que o Método V.O.E. tem a dizer sobre isso
No Método V.O.E., um dos princípios centrais é a coerência vertical: sua pergunta de pesquisa, seu referencial teórico, sua metodologia e sua forma de escrever precisam falar a mesma língua.
Isso inclui a voz gramatical. Se você adotou uma epistemologia construtivista e está fazendo pesquisa qualitativa interpretativa, escrever toda a dissertação na impessoal voz passiva cria um ruído metodológico. O leitor vai sentir algo fora do lugar, mesmo que não consiga nomear exatamente o quê.
A escrita não é embalagem do pensamento. Ela é o pensamento. E a voz que você usa para escrever diz muito sobre como você entende a produção do conhecimento.
A discussão varia conforme a área
Vale mencionar que essa não é uma questão resolvida da mesma forma em todas as disciplinas.
Na saúde coletiva e na psicologia social, a primeira pessoa em pesquisa qualitativa já está bastante consolidada. Há tradição sólida de reflexividade metodológica, e orientadores esperam que o pesquisador se posicione explicitamente no texto.
Na educação e nas ciências sociais, depende muito do referencial teórico. Pesquisadores que trabalham com perspectiva crítica ou pós-estruturalista tendem a valorizar a presença da primeira pessoa. Quem trabalha com pesquisa quantitativa ou estudos comparativos de larga escala prefere a terceira.
Na biologia, farmácia e ciências da saúde com foco biomédico, a terceira pessoa e a voz passiva ainda dominam. Artigos publicados nos principais periódicos dessas áreas seguem esse padrão. Fugir dele sem uma razão muito clara pode soar estranho ao leitor e ao avaliador.
Na história e na antropologia, há tradição longa de escrita em primeira pessoa, especialmente em pesquisa de campo e estudos etnográficos. Nessas áreas, invisibilizar o pesquisador seria metodologicamente problemático.
Isso quer dizer que antes de qualquer decisão sobre voz gramatical, vale entender em qual tradição disciplinar sua pesquisa se insere e como os pesquisadores mais respeitados da sua área escrevem.
Uma última coisa antes de você decidir
Existe um erro que vejo muito frequentemente: pesquisadores que adotam a primeira pessoa de forma solta, quase coloquial, sem nenhuma fundamentação metodológica. “Eu acho que…”, “Eu senti que…”, “Na minha opinião…” espalhados pelo texto como se o rigor tivesse evaporado.
Usar a primeira pessoa com rigor não significa escrever como se estivesse no diário. Significa assumir autoria com precisão. “Optei por esta categorização porque os dados sugeriam…” é diferente de “Achei melhor dividir assim porque ficou mais claro.”
A diferença é sutil na forma, mas enorme no que comunica.
Primeira ou terceira pessoa não é questão de estilo pessoal nem de norma gramatical. É escolha epistemológica. E como toda escolha boa em pesquisa, precisa ser consciente, justificada e coerente com o restante do trabalho.
Agora você sabe o que responder quando aquela voz na cabeça perguntar: “Pode escrever assim?”
Pode. Desde que você saiba por quê.