Voz Passiva no Texto Acadêmico: Quando Usar e Quando Não
Entenda quando usar voz passiva no texto acadêmico, quando ela prejudica a clareza e como equilibrar voz ativa e passiva para escrever com mais precisão.
A voz passiva virou uma regra que nunca foi
Vamos lá. Se você já escreveu um artigo científico ou uma dissertação, provavelmente ouviu alguma variação disso: “use voz passiva”, “evite o ‘eu’ no texto acadêmico”, “nunca diga ‘analisei’, diga ‘foi analisado’.”
Essa orientação está por toda parte, e ela não está completamente errada. Mas foi transformada em dogma sem nuance, e o resultado são textos acadêmicos que soam artificiais, confusos e, muitas vezes, imprecisos justo no momento em que precisavam ser claros.
Vou te explicar o que a voz passiva faz bem, onde ela atrapalha, e como pensar sobre isso de forma mais honesta do que “use sempre” ou “evite sempre”. Porque o texto acadêmico merece mais do que uma regra binária.
O que é voz passiva e o que ela faz no texto
Voz passiva é a construção em que o sujeito gramatical da frase recebe a ação, em vez de praticá-la. “Os dados foram coletados” é voz passiva. “Coletei os dados” é voz ativa.
A diferença não é só estilística. Ela tem efeito sobre quem aparece como responsável pela ação. Na voz passiva, o agente some ou vai para uma posição secundária. Às vezes isso é desejável. Às vezes é o problema.
No texto acadêmico, a voz passiva ganhou espaço por uma razão válida: a ideia de que a ciência é objetiva e que o pesquisador não deve aparecer como sujeito, para não contaminar a suposta neutralidade do relato. Essa lógica faz sentido em alguns contextos e não faz em outros.
Onde a voz passiva funciona bem
Em descrições de procedimentos metodológicos, a voz passiva é natural e adequada. “As entrevistas foram gravadas e transcritas integralmente.” “A amostra foi dividida em dois grupos conforme critérios previamente estabelecidos.” Aqui, o que importa é o procedimento, não quem o executou. A voz passiva coloca o foco no lugar certo.
Em revisões de literatura, quando você está descrevendo o que outros pesquisadores fizeram, a voz passiva também aparece com frequência sem causar problemas. “O conceito foi desenvolvido por Bourdieu nos anos 1970.” “A teoria foi revisada e expandida por autoras posteriores.”
Em contextos em que o agente realmente não é identificável ou não é relevante para o argumento, a voz passiva é a escolha correta. Não tem sentido forçar voz ativa quando não há um sujeito claro para a ação.
Há também o caso de relatórios técnicos e textos normativos, em que a impessoalidade tem função institucional clara. Documentos produzidos por órgãos públicos, comitês ou grupos de pesquisa frequentemente usam voz passiva de forma deliberada para distribuir ou diluir a responsabilidade autoral. Nesses contextos específicos, a escolha é convencional e adequada.
Onde a voz passiva prejudica
O problema começa quando a voz passiva se torna o padrão automático para tudo, inclusive para as partes do texto em que o raciocínio do pesquisador precisa aparecer.
Na análise e discussão dos resultados, você está interpretando dados, construindo argumentos, posicionando sua leitura em relação a outras. Esse é o momento em que o “eu analítico” do pesquisador precisa estar visível. “Os dados sugerem que…” é mais fraco do que “Interpreto esses dados como indicação de que…”. O segundo deixa claro que é uma interpretação, de quem, com base em quê.
Quando você usa voz passiva excessiva nessas seções, o leitor não sabe distinguir o que você está descrevendo do que você está argumentando. O texto perde tração intelectual. As frases acumulam sem que ninguém de fato tome uma posição.
Outro problema é a obscuridade do agente. “Decidiu-se utilizar entrevistas semiestruturadas.” Quem decidiu? Com base em que critério? A voz passiva aqui não gera impessoalidade, gera evasão. E banca percebe evasão.
Existe ainda um efeito menos discutido: a voz passiva excessiva cansa o leitor. Frases em voz passiva tendem a ser mais longas, com mais substantivos abstratos e menos verbos de ação. Quando isso se acumula por páginas, o texto perde ritmo e o leitor perde o fio do argumento. Isso é especialmente problemático em seções de análise, onde o argumento precisa avançar com clareza.
O mito da impessoalidade obrigatória
A ideia de que texto científico precisa ser impessoal é real, mas muitas vezes mal interpretada. Impessoalidade não significa ausência de sujeito. Significa distância de juízos subjetivos não fundamentados.
Você pode escrever em primeira pessoa e ser completamente rigoroso. “Adotei a perspectiva de Foucault porque ela permite analisar…” é uma frase rigorosa, com sujeito claro, com justificativa metodológica explícita. Ela não contamina o texto com subjetividade, ela mostra as escolhas do pesquisador de forma transparente.
Muitas revistas científicas de alto impacto, incluindo as que publicam na área de ciências humanas e sociais, aceitam ou recomendam a primeira pessoa no singular ou no plural. A APA, nas suas versões mais recentes, recomenda evitar construções passivas desnecessárias. A ABNT não proíbe a primeira pessoa. A proibição veio de uma interpretação conservadora de normas que nunca diziam isso de forma explícita.
Faz sentido? A impessoalidade que o texto científico requer é epistêmica, não gramatical.
Como equilibrar na prática
Uma forma de pensar sobre isso: use voz passiva quando o agente não importa ou não está identificado. Use voz ativa quando o agente importa, quando você está fazendo uma escolha, quando está construindo um argumento, quando está interpretando.
Na seção de metodologia, voz passiva funciona. Na seção de análise e discussão, voz ativa geralmente é mais forte. Na introdução e na conclusão, onde você está posicionando o trabalho e sintetizando as contribuições, voz ativa também ajuda a dar mais força ao argumento.
Se você estiver em dúvida sobre uma frase específica, faça o teste da clareza: quem faz o quê nessa frase? Se a resposta for “não sei porque ninguém aparece”, considere reescrever. Se a resposta for “o agente não é relevante aqui”, a voz passiva provavelmente está bem.
Outro teste útil: tente reescrever a frase em voz ativa e veja se ela fica mais clara ou mais estranha. “Os resultados foram discutidos à luz da literatura” fica razoável em voz ativa como “Discuto os resultados à luz da literatura” ou “Analiso os resultados considerando a literatura revisada.” Se a versão ativa for claramente mais forte, use-a. Se parecer forçada ou desnecessariamente coloquial para o contexto, a voz passiva estava certa.
O que o Método V.O.E. propõe sobre isso
Na fase de Organizar do Método V.O.E., um dos exercícios é revisar o texto com atenção ao que está sendo dito de forma opaca. A voz passiva excessiva é um dos marcadores mais confiáveis de prosa que está evitando se comprometer com algo.
Quando você revisa um trecho e percebe que está em voz passiva porque não sabe bem quem é o agente da ação, isso é um sinal de que aquela parte do argumento ainda não está clara para você. A solução não é apenas mudar a voz gramatical. É voltar para o raciocínio e entender o que você quer dizer de fato.
É por isso que o trabalho com a linguagem no texto acadêmico não é cosmético. Quando a frase não funciona, muitas vezes o problema está no pensamento, não na gramática. A clareza no texto é reflexo de clareza no argumento.
Se você quiser entender como esse processo de revisão e organização funciona na prática, o Método V.O.E. está explicado em detalhes aqui. A fase de Organizar inclui exercícios específicos de revisão de prosa que ajudam a identificar não só a voz passiva excessiva, mas outros padrões que deixam o texto opaco sem que o autor perceba.
Perguntas frequentes
Devo usar voz passiva ou ativa no texto acadêmico?
A voz passiva é obrigatória no texto científico?
Como identificar excesso de voz passiva no meu texto?
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